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Small Church

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Alma de Pardal

O armazém é quente e húmido. Todos os dias de Verão são maus dias de trabalho porque além da temperatura há que executar tudo intensa e duramente, dentro do ar viciado. Transportar anéis, bicicletas, móveis, canetas, ou qualquer outra coisa que o cliente tenha licitado. Todos os dias até à exaustão. Todos os dias até que finalmente seja hora de ir para casa.

Durante a manhã entra um pardal. Fica perdido dentro do armazém, esvoaçando, procurando um escape. Embora óbvia para os humanos, o pardal fica cansado de procurar a saída, não conseguindo discorrê-la. Se não for um estratagema de um coração dócil a consegui-lo, o animal conhecerá o pânico, a fome e o desespêro pela privação de liberdade.

E nisto os colegas de quem se tem dificuldade em gostar, mesmo tentando. Os conselhos que são armadilhas, as incompetências, os comentários estúpidos e injustos nas costas e os egos insuflados de justificações requentadas e trazidas de casa. Tudo em catadupa, em contínuo e a cada dia.

 

Final de sexta-feira. No meio disto, já com fim de semana à vista, suado, cansado e sem negligências, deixo cair uma pequena coluna de mármore, caríssima, transformando-a num amontoado de cacos de luxo e metais amolgados. Trabalhada, engastada e polida, mas lixo. Calculei mal a base do transporte. Olhei para o lado errado por dois segundos. Fiz asneira. Depois de ter partido três pratos caros duma vez só, meses atrás, tive de encarar nova fúria do chefe e deixei uma carreira que detesto cada vez mais por um fio.

 

A semana chega ao fim. Fecha-se o armazém e o bulir dos negócios. Param as transações de euros e carros cheios de tralha. Arrumam-se os objectos anteriormente fora do sítio. O entardecer dará lugar à noite. O pó assenta. Chega o silêncio e o vazio de gente.

O pardal ficará só, esvoaçando no escuro até ao fim. Morrerá durante o fim de semana, perdido de angústia.

Então Era Isso

"Estudo encontra ligação ente poluição do ar e surgimento de doenças mentais mais graves."

Engraçado... e eu convicto que era pela via do desmoronamento dos conceitos Família, Amor e ausência de valores. Pela forma como nos agarramos cada vez mais a gadjets em vez de ligarmos às pessoas e à desagregação provocada pela falta de comunicação.

Afinal era o NO2.

Não Me Parece

"Historiador brasileiro diz que falta pedido de desculpas de Portugal pela escravatura."

Caro historiador brasileiro, discordo completamente. E posso explicar. Há muitas razões.

À cabeça, a mais óbvia, é que Portugal hoje não é Portugal de há dois séculos atrás. A esmagadora maioria dos portugueses não se revê de modo nenhum na Escravatura. Logo não pode o cidadão de hoje fazer aquilo que exclusivamente o seu antepassado deveria fazer.

"Portugal" não é uma pessoa. "Portugal" é feito de diversidade de ideias, pessoas e opções políticas. Nessa multiplicidade ideológica, de espíritos diferentes, é impossível de fazer essa decisão que sugere como se fosse a opção de uma pessoa. Não haveria concenso.

Finalmente, e para ser muito concreto e pragmático, o passado não pode ser mudado. O que pode ser mudado é o futuro. E até o presente. Dou um exemplo: visto que a utilidade da História é nos ensinar o futuro, incomoda-me muito mais que donos de cafés da zona em que vivo não aprendam com ela e empreguem brasileiros desesperados por um salário ilegalmente baixo em vez de lhes darem uma oportunidade digna, performando uma espécie de "escravatura moderna". Mas ainda pior que isso, e aqui vai o segundo exemplo, é a escravatura bem à moda antiga, daquela que portugueses fizeram durante séculos, como aquela que Sebastião Salgado (renomado fotógrafo brasileiro de créditos firmados) bem captou nas minas do seu país.

Em suma, podemos todos lamentar Escravatura, Imperialismo e Colonialismo. "Pedido de desculpas" é que não me parece. Seria tão ridículo como um historiador brasileiro ter de pedir perdão aos mineiros do seu país.

Ad Fail 5

A certa altura o anúncio de televisão, acerca de vendas online de artigos usados, produz a seguinte frase, pela boca de uma miúda cheia de estilo: "Olá, sou a Luísa, sou artista visual e influencer de moda sustentável."

MUÁÁÁÁÁÁÁ-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA... Aaaa... Ai, que me doi a barriga...

"A uma crise não se responde com austeridade"

A frase é de António Costa. Mas, pensando bem, não é assim tão estranha. Principalmente na boca do Primeiro Ministro.

Suponhamos que o pai (ou a mãe) trabalha num restaurante e é despedido. Chega a casa e sabe que não terá um emprego nos próximos tempos, se tudo correr na normalidade dessas vicissitudes. Sabe que tudo o que o Governo lhe "der" agora pagará com juros bem altos mais tarde, independentemente da situção de então. Pior do que isso, não terá palavras para dizer em casa ao encarar os seus. Ele (ela) sabe que uma crise familiar está pela frente. Nesse mesmo dia, o filho pede: "Pai (mãe), compra-me uma playstation." O pai (mãe) responde: "Filho, neste momento não é possível. Não temos dinheiro para coisas que não sejam essenciais." Bem, isto acontecerá pelo menos numa família normal. Já se for um pai (ou mãe) ao estilo de António Costa, nesse caso, a resposta será "Ok, a playstation vem já amanhã. A uma crise não se responde com austeridade."

Bem, teatrinhos ridículos à parte, já digo que não concordo nem discordo da ideia, visto não perceber nada de Economia. O que me chama a atenção é a intenção da colagem de "austeridade", uma expressão muito em voga dez anos atrás, a outros que não o governo de salvação PS/Geringonça. (Sim, alguns de nós não se esqueceram. Com o dinheiro dos outros, que não nos custou nada, porque não haveríamos de ser auto-indulgentes?)

Caro Primeiro Ministro - escrevo como se se dignasse ler blogs do povo - "austeridade" foi o que teve de acontecer para salvar o território do seu partido, aquele que cavou a crise. Foram-se os anéis para ficarem os dedos. (Já esqueceu? Nós não.) Porém, mesmo DEPOIS da "austeridade", o preço dos combustíveis nunca foi tão alto, tal como tão alta nunca foi a restante carga de impostos ou a dívida externa do país para o qual contribuímos com impostos, como se mandassemos dinheiro para um buraco sem fundo.

Claro que não se combate uma crise com austeridade. A construção de um país faz-se é a apoiar candidaturas altamente ruinosas (mas muito convenientes) a presidências de clubes históricos, a deixar fugir os verdadeiros fazedores de crises para ilhas mediterrânicas, bebendo champanhe ao pequeno-almoço, gastando por um lado aquilo que a nossa permanente e eterna austeridade pagará por outro.

Leão

Parece que ainda foi há pouco tempo que chegou. Já em cachorrinho de pouco mais de dois meses transportava com ele aquele ar de desafiador, convencido que era alguém e que mandaria na família toda. E por pouco não foi assim.

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Depois cresceu, guardando a casa de gatos, ratos, formigas e outros insectos, ladrando até a exaustão de todo e qualquer ser vivo do planeta Terra. Não havia bicho que nos assaltasse. Pelo caminho, também, um dentada num desmiolado que resolveu meter o braço para dentro do portão; e uma outra num vizinho de confiança que conhecia havia dez anos. Sempre a inovar...

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Mas aquilo que a mim pareceu pouco tempo é muito tempo na vida de um cão rafeiro de médio porte com genes belgas. Ao longo de um ano temos visto o Leão definhar, perdendo parte da visão, do andar e da capacidade de digerir. A rápida vida dos animais, acho, foi feita para nos farpar a alma e fazer sofrer. E fazer com que o final dos fins de semana sejam depressivamente tristes, antecipando o seu final. Em todo o caso nem quero pensar como seria se a sua vida fosse longa. Mesmo que logo no princípio eu percebesse que a vida com ele seria uma prisão e nem sequer gostasse do cão.

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Política VS Moral

"(...) Início do jogo, com a Bélgica a manifestar-se contra o Racismo, algo que a Rússia não fez, no lançamento da partida, o que motivou assobios pelos adeptos belgas presentes em S. Petersburgo." (O comentador da SportTV+, no resumo do Bégica - Rússia.)

Vivemos um tempo de pré-fascismo acelerado. Outrora, "fascismo" estava conotado com a Direita. Porém, hoje, essa forma de impor ideias pela força parece vir de qualquer lado. Os extremos das Esquerdas nunca foram tão parecidos com os das Direitas, lembrando a Europa de há 80 anos atrás. A Europa na herança de Stalin, Hitler e outros ditadores.

E o futebol (futebol como exemplo óbvio - há outros menos óbvios mas porventura mais importantes) mostra e demonstra há muitos anos a sua rendição ao fenómeno de forma caricatural. Será que se pode abominar o Racismo sem ajoelhar antes de entrar em campo? Para eles, pelos vistos, não, não é uma questão política. Pessoalmente, eu, pessoa que abomina o Racismo, não ajoelharia. Essa é uma aberração formal conotada com uma demonstração POLÍTICAmente, ideologicamente correcta e não como um valor moral. Explico: o mesmo jogador (seja de que cor for) que ajoelhar contra o Racismo poderá muito bem ser aquele que fará cinco faltas (caneladas, puxões, empurrões à margem da lei), simulará agressões por parte do adversário e lá mais para os 82 minutos chamará nomes a alguém (seja de que cor for) no intuito de mexer com a cabeça e dessa forma tirar proveito desportivo ou, simplesmente, ofender. Assim, porque neste assunto é a Política Ideológica que está em guerra com a Moral, numa tentativa velada da sua aglutinação, passou a ser mais importante a demonstração política de que "nós é que estamos certos", do que fazer aquilo que deve de ser feito.

Por tudo isto, a UEFA dá um tiro no pé, ridículo e gigantesco (mas politicamente correcto, claro) de dizer que as camisolas da Ucrânia têm de ser alteradas. Parece que tudo aquilo já tem motivação "claramente política". E isso não pode ser.

Se a minha selecção tiver uma camisola a dizer Sagres, mesmo que essa marca (e as outras todas do género) contribuam indirectamente para mortes na estrada, violência doméstica e maus hábitos em jovens, tá tudo bem. Mas se um país se motiva desportivamente como bem entende...

Volto ao princípio, à questão da Política e da Moral. E se Portugal for campeão? Banirão o hino centenário porque diz "Às Armas, Às Armas"? Desconfio que lá chegaremos. "Ou mudam o hino, ou não entram no Euro." Infelizmente, como vai a coisa, desconfio que mudaremos o hino. Ou seja, ajoelharemos.

As Chaves de Casa

Imagine que um americano o abordava na rua. Dizia-lhe que limparia a sua casa, de graça, e que a única contrapartida seria dar-lhe a sua chave de casa. Dizia-lhe que a única intenção era de que a sua vida fosse mais fácil. Aceitaria? Imaginemos que sim. Você tinha a noção de ser um grande risco, mas como não tinha muito tempo para limpezas e muitas pessoas do seu conhecimento até tinham feito o mesmo com sucesso, aceitava.

Era mesmo verdade. O rapaz a quem você deu a chave limpou a casa e bem! Ao chegar tinha um cheiro a fresco e tudo estava arrumado e limpo. Sem batota. Funcionava assim lá no bairro com toda a gente.

Depois desse bom entendimento, ele propôs-lhe outra coisa. Agora limparia o sotão, a garagem, as escadas, o carro e ainda com o bónus de lhe tratar dos cães e dos gatos. Só havia um catch: você forneceria chaves para os amigos do rapaz. A saber, um chinês, um coreano, um inglês, um russo e, quem sabe, alguns outros da sua confiança. Bem, nessa altura, você hesitaria bastante, mas dada a credibilidade dos anteriores trabalhos entre amigos, acabaria por fazer um monte de chaves para dar a toda a gente.

E as coisas mudam. O tempo passa e você fica com vida para tudo. Os seus fins de semana tornam-se mais divertidos e até o trabalho tem corrido melhor. A sua vida social nunca foi tão boa e os culpados são os tipos que a isso se propuseram. O facto de que as suas chaves de casa andam por aí em quantidades que desconhece deixa de o preocupar. Os resultados importam mais que isso. Seja qual for o preço.

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É claro que esta história não faz sentido nenhum. NINGUÉM no seu perfeito juízo daria a chave de casa a um estranho por qualquer que fosse a razão. Muito menos faria cópias para outros que nem sequer conhece.

Mas isso leva-me a uma questão um pouco mais profunda e com a qual talvez nos identifiquemos um pouco melhor. Se não daria as chaves de casa a um estranho, porque razão dá as chaves da sua vida à Google, ao Facebook, Instagram, Youtube, Twitter e muitos, muitos outros que tudo o que querem é limpar-lhe a carteira? E como limpam! Tudo o que pedem em troca é saber tudo sobre a sua identidade. Como vive, como se comporta, como compra... Que religião, idade, cor, cor política, hábitos morais e tudo o que possa identificar QUEM É.

A velha ideia de que "mas eles acabam por saber tudo, quer lhes dês, quer não dês" não pega. Até pode ser que o resultado seja o mesmo, mas uma coisa é assaltarem-me a casa; outra bem diferente é dar as chaves de casa ao ladrão.

Investigue, ou não. Já nem vou pelo argumento do lucro anual destas empresas e do quanto moldam as sociedades e até governos. Para já faz-me mais comichão a forma como estes estranhos com interesses obscuros moldam famílias, hábitos familiares e personalidades. Eles aprestam-se, mais do que nunca, a tomar conta das nossas casas e dos nossos seres. Chegará o dia em que abriremos a porta e a casa estará limpinha, mas não da forma como comecei o texto...

Então, é tarde demais. Já lhes demos as nossas paredes e eles poderão fazer a festa que bem entenderem com as nossas famílias. Com a nossa permissão.

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