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Small Church

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As eleições no Brasil

É mais o menos como reeleger Sócrates.”

Eis uma frase certeira entre o muito que se tem escrito e dito após a vitória de Lula da Silva nas presidenciais brasileiras. Certeira porque retrata a situação do Brasil hoje, dividido, ao meio, e com um fosso profundo entre as duas metades. Uma metade rejeita de tal forma as ideias e o modelo de sociedade proposto pelo atual Presidente que não se importa de ver no seu lugar alguém que há apenas três anos estava na prisão condenado por corrupção. A outra metade rejeita liminarmente o candidato eleito porque, precisamente, não pode conceber que na liderança do seu país esteja um homem condenado por corrupção. É nesta separação primordial, que depois catalisa outras divergências menores, que o Brasil vai viver nos próximos anos.

Lula da Silva bem pode falar em “compromisso”, “união”, “baixar as armas”. São, por certo, palavras que ficam bem na hora da vitória, mas que na sua boca não passam de meras palavras de circunstância. Precisamente porque quem as pronuncia não tem condições pessoais para as concretizar. Tal como  em Portugal não as teria Sócrates caso voltasse a ser primeiro-ministro…

O lado bom

É bonito. E, tenho de confessar, inesperado. No “negócio da bola” haver ainda espaço para a memória e para a gratidão merece referência - com uma pontinha de esperança. Bem Samaris e bem os adeptos.

Ainda as eleições na Suécia (II)

Não é preciso esperar por eleições para sentir o efeito “Suécia” que descrevi ontem. Nos meios de comunicação, por exemplo, ele já é visível. Como neste texto.   

O apelo à discussão franca, e organizada, do assunto “imigração” é uma concessão importante por parte do “sistema”. Bem nos lembramos, e, na verdade, ainda acontece, da impossibilidade de discutir tal assunto abertamente. Quem o quisesse fazer, porque, como em tudo o resto na vida democrática, as opiniões são várias e as decisões devem tê-las em conta, quem quisesse discutir imigração era imediatamente insultado com dois ou três rótulos que o colocavam fora da possibilidade de debate, e, dessa forma, o diálogo acabava ali porque os democratas não discutiam com xenófobos e quejandos. Agora que a censura preventiva parece não alcançar o efeito desejado, passa-se, então, ao apelo ao diálogo. E como os rótulos ficaram gastos de tanto uso, e tendem a tornar-se contraproducentes, acaba-se também com eles. Menos mal, dizemos nós, ainda que com plena consciência que esta disponibilidade para diálogo e para o fim do insulto é apenas um recuo tático. Porque a intenção permanece: impor a “verdade” do ”sistema”. Este parágrafo é esclarecedor: “Se queremos mudar como pensam, temos de conversar - com todos e muito em particular com eleitores que legitimam partidos com políticas que vão contra os valores democráticos e que custaram séculos de progresso social e humano. A melhor possibilidade que temos de não ver políticas fascistas é "ganhando" quem vota ou pode votar nelas para soluções democráticas - e é pouco provável que se consiga fazê-lo gritando a cada passo que são fascistas”. Ouvir o outro, aprender, encontrar soluções equilibradas, as virtudes que associamos ao diálogo, não interessam aqui. Seja como for, o “sistema” recua, e isso é bom.

Ainda as eleições na Suécia (I)

Tenho para mim que as eleições suecas do passado dia 11 constituem um acontecimento importante na História europeia contemporânea. Precisamente porque a viragem feita à direita (toda a direita, da moderada à extrema) acontece na Suécia. Não é na latina Itália, berço do fascismo de Mussolini, ou nas ex-comunistas Hungria e Polónia. Não é num país com historial recente pouco democrático. Acontece na Suécia, num nórdico, num espaço que para nós é sinónimo de tolerância, civilidade e democracia. E a questão é esta: se os suecos, que são o tal modelo de tolerância, civismo e democracia, tomam esta opção porque não segui-los, ou, pelo menos, porque não pôr em cima da mesa essa possibilidade? É isto que vai ser dito pelos parceiros ideológicos por toda a Europa e, não tenho dúvidas, vai legitimar na mente de muitos eleitores a escolha à direita como cabendo dentro do espectro democrático. Se os suecos votam assim porque não nós? Esta pergunta tem tudo para ter um peso relevante na balança política europeia.

Da desfaçatez

João Gomes Cravinho, ministro socialista, cujo partido, em 2015, depois de ter perdido as eleições para os sociais-democratas, chegou ao poder recorrendo à aliança com a extrema-esquerda, comentou publicamente a maioria de direita surgida nas eleições do  último domingo na Suécia. Para se aferir a dimensão da desfaçatez do ministro troque-se nas declarações a referência ao país e ao lado político vencedor - eu ajudo, entre parentesis. Fica assim:

 "A vitória nas eleições da Suécia [em Portugal] foi para o Partido Social Democrata, que foi por cerca de 10% o partido mais votado. Portanto, o primeiro comentário é para dar os parabéns ao Partido Social Democrata pela votação que teve. "

"Infelizmente, há uma maioria que inclui a extrema-direita [esquerda] e que possivelmente - vamos ver -, formará Governo. O nosso voto é que as políticas da extrema-direita [esquerda] não sejam relevantes no próximo Governo que vier a sair das eleições da Suécia [em Portugal]" .(aqui)

Das duas, uma: ou Cravinho reconhece, ainda que implicitamente, o erro da geringonça, de se ter trazido os extremistas para o poder, e parabeniza Pedro Passos Coelho; ou tem um descaramento do tamanho da Serra da Estrela. Sem ilusões, acho que é a segunda hipótese.

 

TPC

TPC

Leio Os Maias aos 55 anos. O livro passou-me pelas mãos no secundário, como é óbvio, mas a coisa fez-se apenas com uns trechos lidos nas aulas e, sobretudo, alguma atenção ao resumo na revisão antes do teste. Deu para passar, e isso, na altura, era o mais importante. Agora levo o livro para férias. Um clássico de 700 páginas a que me rendo, na sua escrita fluída e elegante, crónica social e ironia certeira. Gostei, resumindo. E fico a pensar que, sem dúvida, aos 15 anos toda esta arte me teria passado ao lado, porque tudo tem o seu tempo e Os Maias não é leitura para adolescentes – no meu caso não era certamente. Imagino, então, o professor de português escrevendo no quadro, depois da tal aula de revisão, o decreto sagaz que lançaria o livro de Eça para lá do estrito cumprimento do programa escolar. Seria qualquer coisa do género:

TPC: ler Os Maias aos 50 anos.

Portugal igual

Um excerto d’Os Maias, de Eça de Queiroz:

“- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá…. O empréstimo faz-se ou não se faz?

E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...

O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha que se realizar “absolutamente”. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma fonte de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida, como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – “cobrar imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim havia de continuar.

Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.

O Cohen acertou em cheio. Passados quase 150 anos, assim continuamos: empréstimos, ou seja, dívida amontada; e impostos, impostos sempre a crescer. Falta aqui a mão estendida à União Europeia, que na altura não existia, e que tem funcionado como retardamento, e ao mesmo tempo paliativo, para o desfecho vislumbrado por Carlos (mesmo não percebendo nada de finanças…).

Monarquia, república, ditadura e democracia: mudam as formas de governo, mas tudo continua tão parecido.

O que disse o Presidente sobre os evangélicos?

Nunca, depois do 25 de Abril, as palavras de um Presidente da República valeram tão pouco. Gastas de tanto uso, proferidas a horas e a desoras, atoladas em banalidade - das "incidências" do jogo da seleção às intrigas palacianas que visivelmente entusiasmam Marcelo, as palavras presidenciais contam cada vez menos, sobretudo para quem deviam contar - os cidadãos. E não é bom que assim seja.  O desgate de Marcelo Rebelo de Sousa vai além da mera questão pessoal, significa a desvalorização da primeira figura do Estado, uma voz com responsabilidade e peso na vida democrática.

Vem este desabafo a propósito de uma entrevista (mais uma...) dada pelo Presidente, neste caso à SIC. Não a vi, como é óbvio (depois do que escrevi acima...), mas a minha atenção foi chamada para ela por um artigo de opinião publicado ontem n'O Observador. Ao ler o texto deparei-me com este parágrafo:

"A dada altura, Anabela Neves introduz a questão do Chega. Aqui, somos brindados pela capacidade analítica de Marcelo Rebelo de Sousa ao afirmar que não compreende o discurso do partido sobre imigração porque, e cito, “dois terços do eleitorado desse partido é de imigrantes Brasileiros e porventura Africanos”. Para além de isto ser simplesmente mentira – no inquérito pós-eleitoral de 2022 existe uma pergunta sobre a origem geográfica dos eleitores e 96.77 por cento dos respondentes que afirmam ter votado no Chega confirmam ter nascido em Portugal – Marcelo deixa ainda um subtexto em que tenta remeter a responsabilidade da ascensão e consolidação do Chega para os imigrantes e para os seus valores “ligados a Igrejas Evangélicas”. Não foi bonito. Num país sério, estas declarações verdadeiramente xenófobas exigiriam um pedido de desculpas oficial por parte de Belém." 

O que disse, concretamente, o Presidente sobre os evangélicos? Generalizou? Foi impreciso? Falou do que não sabia? E antes disso: ainda importa tirar a limpo o que diz ou já não vale a pena ligar? O Presidente ainda fala ou já ouvimos apenas Marcelo? E eu: já desisti ou ainda há por aqui uma pontinha de exigência e capacidade de indignação?

O censor

Ainda a atitude censória do Presidente da Assembleia da República.

Em declarações ao Expresso, Augusto Santos Silva defende-se afirmando que “de um lado está todo o discurso político, por mais violento que seja, e do outro o discurso do ódio”, recorrendo, assim, e sem surpresas, ao argumentário típico dos censores. Liberdade de expressão e de opinião, tolerância e diálogo para todos, com certeza, menos para os que utilizam o “discurso do ódio”. Esses não têm direito a ser escutados porque se colocam fora do jogo democrático. E o que é o “discurso do ódio”? Trata-se de uma designação suficientemente vaga e arbitrária para onde, neste caso, o censor envia aqueles que acha que não devem ter os mesmos direitos que os outros. Os comunistas vociferando contra os capitalistas e o patronato; os animalistas acometendo contra os adeptos da tourada; os bloquistas atacando os nacionalistas; os nacionalistas atacando os multiculturalistas; Joacine Katar Moreira desejando o pior aos brancos; todos estes têm “discurso de ódio”? Não, no caso deles é apenas “discurso político violento”. Então qual o critério objetivo para decidir? Nenhum. O critério é a opinião, os preconceitos e a estratégia política de Augusto Santos Silva. Ele é o censor, e como tal toma para si a capacidade de decidir o que é “discurso de ódio” e de agir em conformidade com o rótulo que ele próprio colou.  

É grave que isto aconteça na casa da democracia portuguesa.

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