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Small Church

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Wokismo

Um artigo no Expresso sobre a decisão do Supremo Tribunal americano de passar para os estados a decisão de legalizar ou proibir o aborto. O Expresso tem a sua linha editorial sobre o assunto, bem conhecida, e eu não estava à espera de encontrar uma abordagem imparcial. Não me enganei. O estilo é panfletário, o que, diga-se, não causa grande mal, quem quiser conhecer o outro lado vai procurar noutro jornal. O que não estava à espera era do wokismo sem véus que encontrei no texto.

Primeiro, uma afirmação pouco clara: “1 em 4 pessoas nos EUA fazem um aborto ao longo da vida”. A autora enganou-se, e em vez de escrever “mulheres” escreveu “pessoas”, pensei eu. Se não fosse assim, e assumindo que pelo menos metade da população do EUA é do sexo feminino, significaria que uma em cada duas mulheres faria um aborto ao longo da vida, o que constituía uma percentagem brutal e totalmente inverosímil. Uma “gralha”, portanto, foi a minha conclusão, avançando no artigo.  Mas um pouco mais abaixo, a teoria da “gralha” caiu por terra.  A autora dá voz aos "ativistas" (quais? O que estão a favor ou os que estão contra? Devem ser os a favor, julgo eu, mas um pouco mais de clareza só ajudava o leitor), os ativistas estão preocupados com “os direitos reprodutivos das pessoas com útero”. “Pessoas com útero”?! Ok, percebi, estão explicadas as “gralhas” e as meias palavras. Não é distração. Nem é propriamente jornalismo. É wokismo. 

Aquecer a água

Passamos por S. Torpes e damos lá um mergulho, pensei eu. A água morna, ou menos fria, conforme as sensibilidades, convidava a isso.  A ponta norte da praia de S. Torpes beneficia da proximidade da saída da água que arrefece a central termoelétrica de Sines. Vinte, trinta metros de praia com água morna e depois… o mar mais frio da costa alentejana. Era bem pensado, sim senhor, mas não aconteceu. Porque a central termoelétrica foi desativada há mais de um ano e deixou de haver água morna. Acabar com carvão como combustível para produzir eletricidade acabou com o nosso banho ameno em S. Torpes.

Lembrei-me disto quando vi a notícia que a Alemanha, os Países Baixos e a Áustria tinham decidido reativar as centrais a carvão (com o pormenor delicioso de o ministro da economia alemão, que anunciou a medida, ser do partido… ecologista). Já que, afinal, o planeta pode esperar, e conhecendo a plasticidade de António Costa no que à Europa diz respeito, talvez ainda volte a ser possível tomar um banho tépido em S. Torpes. 

Somos todos Idrissa Gueye?

Em França, um futebolista do PSG, Idrissa Gueye, está na berlinda porque, aparentemente, não quis vestir a "camisola com as cores da bandeira LGBTQ+" na jornada contra a homofobia. O que parecia ser uma posição perfeitamente legítima no âmbito da liberdade de pensamento e de crença, por certo sujeita a críticas e a apoios, como todas as outras, mas posição legítima, acabou por se transformar num caso de polícia. A governante eleita democraticamente não tem dúvidas que "a recusa de Idrissa Gueye em unir-se à luta contra a homofobia não pode ficar sem sanções", e o dirigente coorportivo quer a lei a castigar o senegalês, explanando com clínica limpidez o raciocínio repressivo da ditadura: quem não se enquadra nos comportamentos superiormente definidos é homofóbico e "ser homofóbico é punível por lei". Mais claro que isto é difícil. Já não é preciso agir contra para ser condenado, basta não fazer o que previamente alguém definiu por nós que deve ser feito; já não é preciso as acusações serem suportadas por atos, basta a passoa "ser" - e para discernir quem "é" temos a casta do "esclarecidos".  Se isto não cheira a ditadura, e da pior, então os nossos narizes europeus estão mesmo doentes. Somos todos Idrissa Gueye?

Index, Mesa Censória e Livros Destruídos – versão 85.0

O ano é 2022. O costume antigo.

Particularmente elucidativo o trecho em que se dá conta que “o livro foi retirado completamente em março deste ano, após uma revisão independente e já não se encontra disponível para compra. A OUP destruiu o seu próprio stock do livro, embora um pequeno número de cópias ainda possa ter escapado. Alguns títulos mais antigos ainda podem estar disponíveis em bibliotecas”. Não basta desaconselhar a leitura ou censurar, é preciso destruir, erradicar. Claro que há sempre o risco de escapar algum exemplar. Se tal acontecer, fiquem todos a saber que o livro consta do index e que o dever cívico de quem encontrar tal exemplar é, primeiro que tudo, não ler e, logo de seguida, dar um fim definitivo ao objeto. Muito inconveniente também será ter na sua posse um livro destes. No mínimo, o infrator será castigado com alguns “ismos” e “ófobos” estigmatizantes.

Novidades da semana passada

- Os andorinhões (apus apus) estão de volta. No passado dia 6 vi o primeiro deste ano. Caminhava para o carro quando ouvi o característico piar agudo. Procurei no céu, e lá estava ele, no seu voo rápido e nervoso, confirmando, assim, a Primavera. Agora já são bandos, que por cá ficarão até setembro.

- Os Monty Phyton em reposição na RTP2, uma boa surpresa no final da noite de dia 7.  O episódio era de 1969, e eu conhecia alguns dos sketches, mas, ainda assim, conseguiu arrancar-me genuínas gargalhas. Muito bom, como sempre. Às quintas-feiras.  

Acantonamento do regime – II

Por curiosidade fui comparar os resultados das eleições de 2019 com os resultados das eleições do passado janeiro. Somei as percentagens de votos à esquerda e de votos direita e verifiquei, sem grandes surpresas, que a esquerda baixou (54,0%, em 2019 e 51,1%, em 2022) e a direita cresceu (35,1%, em 2019 e 43,1% em 2022). Significativamente, o decréscimo da esquerda coincide com a maioria absoluta ao PS, fruto do esvaziando do Bloco e da CDU. Isto afigura-se-me como mais um exemplo do acantonamento do regime. De facto, a ideia que fica é que os eleitores de esquerda, claramente maioritários nas últimas décadas, bateram em retirada para a fortaleza que lhes parece mais sólida e segura, onde julgam ser possível, juntando forças, defender com sucesso os seus interesses. Foi isto mesmo que eu escutei, com alguma surpresa, em comentários avulsos pré-eleições, e é isto o que a maioria absoluta do PS significa: esquerda em perda e na defensiva - sim, por paradoxal que pareça, é isto que significa. A direita, em contrapartida, cresce e fragmenta-se, precisamente o processo contrário ao da esquerda. Esta fragmentação abre novos caminhos e cria novas oportunidades. Resta à esquerda, então, o populismo de António Costa. E, reconheça-se, ele é bom nisso. Mas, como lembra aqui o João, o populismo vive da clientela eleitoral satisfeita. Expectativas não correspondidas, à conta da inflação, por exemplo, podem facilmente abrir a porta a outro vendedor. E é assim que estamos. O regime (o tal grupo agarrado ao poder) escudado numa maioria absoluta, mas numa situação de extrema fragilidade.  

Acantonamento do regime - I

Poucos dias depois de ultrapassar em longevidade o Estado Novo, a democracia portuguesa torna a evidenciar sintomas de degradação. Desta vez foi na eleição dos vice-presidentes da Assembleia da República. Quebrando a tradição, a regra não escrita, os dois maiores partidos, PS e PSD, dividiram entre si os lugares, deixando de fora a terceira força política, Chega, e o seu eventual substituto “não radical”, Iniciativa Liberal. É bom lembrar que no passado, quando CDU e Bloco de Esquerda estavam no mesmo lugar hierárquico quanto ao número de deputados, o Parlamento elegeu comunistas e bloquistas para a vice-presidência. O extremismo nunca foi problema… até hoje. Constata-se que passou a ser agora. E porquê? Tenho para mim que estes pretextos claramente forçados, na linha dos atos de censura praticados por Ferro Rodrigues sobre o Chega, por exemplo, são afloramentos da arrogância, por um lado, e do desespero, por outro, do regime que nos governa (regime entendido aqui como grupo agarrado ao poder e não como sistema político democrático). Uma mistura de à-vontade de dono disto tudo e de incapacidade para abafar a alternativa em crescimento. O regime acantona-se na tentativa de juntar forças para travar, abrandar o mais possível o processo em curso – porque inverter a situação parece ser já uma miragem. Vai tarde, julgo eu. Não é fácil prever quanto tempo irá durar o processo, e quantas arbitrariedades e atropelos à democracia, como o de hoje, irão acontecer – não se larga o poder sem tentar todos os golpes. Mas a julgar pelo medo e pela fraqueza que o acantonamento demonstra, sublinhados pela descarada inimputabilidade democrática, o regime que não quer larga o poder parece ter os dias contados. Uma questão de tempo, digo eu.

Sobre a Rússia

A extraordinária lenda sobre a conversão dos Russos narra que em 988 Vladimiro [príncipe pagão de Kiev] decidiu que era do interesse do seu reino que ele adaptasse uma das religiões mais prestigiadas. Segundo a Crónica Russa, mandou mensageiros que estudassem de perto o islamismo, o judaísmo, o cristianismo latino e o cristianismo bizantino. Os primeiros três não agradaram a Vladimiro, ao passo que se sentiu conquistado pelos relatórios que lhe chegaram de Constantinopla, segundo as quais quando uma pessoa assiste à missa na grande igreja de Santa Sofia já não sabe está na terra ou no paraíso. Vladimiro ordenou que todos os Russos fossem baptizados em massa segundo o rito ortodoxo. A ortodoxia tornou-se assim a religião de estado da Rússia.

Embora, provavelmente, sem reflectirem a verdadeira história, os pormenores da lenda mostram-nos um dos traços mais típicos do cristianismo russo. A forma de culto foi sempre mais importante que os outros aspectos, como a teologia ou a moral. O impacte mais imediato da ortodoxia sobre os Russos foi mais de natureza estética do que intelectual ou moral. E, com efeito, o vocábulo eslavo para «religião» é «Provoslavie», que significa «verdadeira adoração» ou «justa glória», e reflecte a primazia que a mentalidade russa atribui à liturgia.

in História do Cristianismo, Bertrand

 

Aprender com os erros

A confirmar-se a suspeita de que a Rússia financiou grupos ambientalistas na questão do fracking, e que esses grupos tiveram impacto direto no aumento da dependência europeia em relação à energia russa, a confirmar-se isto (aqui), então o assunto não pode passar sem nota. Há uma lição fundamental a tirar na forma como estamos a tomar decisões. O mal está feito, sim, mas seremos sábios se aprendermos com ele para o futuro.

Por parábola

A evidência:

Os pneus do carro estão completamente “carecas”. É preciso trocá-los porque quando vier o inverno e começar a chover a situação vai ficar perigosa.

A consequência:

Acidente, carro parado durante uma temporada e rombo monumental no orçamento familiar.

A justificação socialista:

A culpa é do inverno. Só quando veio a chuva é que os pneus deram problemas.

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