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Small Church

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História Geral e Melancólica de Fevereiro

Desde pequeno, talvez desde a pré-adolescência, que fico abatido e triste durante janeiro e fevereiro. Espero com impaciência por março, mês em que o ânimo volta ao estado normal. Mas é preciso ter cuidado com março. Se era durante os dois primeiros meses que os pensamentos suicidas apareciam, por vezes com uma força estranha que hoje tanto me espanta, o terceiro tem-me trazido uma euforia reformista que eu só consigo comparar a uma rolha de espumante a sair desvairada depois de uma daquelas pessoas a que se costuma chamar a alma da festa a libertar após ter a melhor notícia do mundo. Todas as grandes alterações na minha vida nasceram nesse período e nem sempre foram as mais fixes. Pelo contrário, trouxeram muita dor e preocupação imerecidas aos outros, e muito remorso e culpa para eu colocar naquela mochila que não é possível pousar.

Nos últimos anos tenho sido competente a lidar com essa tristeza profunda de quem perdeu todos os que ama e com essa euforia de quem foi salvo in extremis de morte certa. Quase ninguém se apercebe que aquele tipo sorridente e cordial com quem convive está, na verdade, a fazer magia do tipo ótico e não passa de uma lesma triste e melancólica (haverá alguma imagem mais precisa do que esta em tudo o que já escrevi até hoje?) que se arrasta à sua frente, suspirando pensamentos tão tristes quanto involuntários, embora tentando sempre ser puxada para cima, para um sorriso ou uma gargalhada. Talvez mais evidentes, as resoluções de mudança precoces têm sido aplacadas com bom senso e também com magia, desta vez não minha, mas uma aplicada por três ou quatro pessoas a quem sei que tenho de escutar mais do que a mim mesmo.

Por estes dias, triste sem opção, olho para mim mesmo com um misto de curiosidade e impaciência. Olho para essa melancolia, cada vez mais bem definida, cada vez mais ineficaz para além de um suspiro ou incapacidade de procurar alegria no momento.

Observo-me de fora e tenho pena de ter percebido tão tarde. Mas, enfim, é melhor saber do que não saber. É melhor saber resistir do que fingir que não existe, mesmo que fevereiro nem sequer tenha ainda começado.

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