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Small Church

Small Church

Do complexo de épico

As ideias peregrinas têm vindo a chegar a este lugar cada vez mais espaçadas. Passam-se agora anos sem que uma me apareça com aquela secura de corpo característica de viagem tão solitária como longa. A situação desgosta-me. Gosto de conhecer ideias peregrinas. Cometi mesmo a certa altura o erro de pensar que uma vida, para ter valor, devia ser alimentada por esse tipo de criatividade involuntária que são as ideias que brotam sem que as procuremos. Na sua cada vez maior ausência dos meus dias, acabei por alterar as regras e adotei as ideias dos outros, mentindo-me que eram minhas. Demorei demasiado a perceber que a minha vida mental tem um grande potencial para ser desertica e que, na verdade, como adulto é raro assinalar algo de novo na paisagem. Acho que é por isso que se procura no entretenimento, eu sobretudo na ficção, outros nas notícias, um paliativo para essa secura.

Há dias uma ideia peregrina cansada sentou-se na minha sala. Embora surpreendido, porque já não via uma há muito tempo, ofereci-lhe água e descanso. Em troca, e talvez por cordialidade (digo-o porque o seu olhar me pareceu o de quem achava que eu não estaria à altura de a colocar em prática), ela revelou-se. Aconteceu ao final da noite. Estava deitado no sofá. Acabara de desligar a televisão, entediado. Doendo-me os olhos, não consegui pegar no livro que ando a ler. Coloquei as mãos atrás da cabeça e fiquei a olhar para o teto. Pensei: “Já não tenho quase nenhuma curiosidade pela ficção dos outros” e a seguir “É mesmo verdade. Sinto-o. Já quase não tenho curiosidade pelos frutos da imaginação dos outros.” Foi então que a minha visitante surgiu, oriunda de um lugar misterioso, e me disse, depois de recuperar um pouco da cor, “Chegou a altura de teres curiosidade por ti e pela tua imaginação. Aplica a tua curiosidade ao que desconheces dentro de ti e ao que poderá materializar. Já não vais para novo. Dedica o tempo que te resta a isso, a saber do que é capaz a soma das tuas partes.” Ficámos em silêncio. Pensei, sem lhe dizer por pudor, que fazia sentido e que a achava uma bela ideia. A seguir perguntei-lhe porque demorara tanto a chegar já que ela me teria dado jeito há umas décadas atrás. Ela sorriu e disse “Tive que seguir aquele trajeto complicadíssimo que tens vindo a desenhar. Podia atalhar, mas isso seria aldrabar-te.” E piscando-me o olho “E com certeza que não querias que eu fizesse batota. Assim não valeria a pena, pois não?” Respondi que sim com a cabeça, envergonhado por, afinal, ser eu o responsável por só agora a conhecer “Claro que não. As coisas devem acontecer no tempo certo.” “Isso!”, respondeu, fechando os olhos e esticando as pernas num espreguiçar.

Enquanto escrevo isto, a ideia peregrina está sentada em cima da mesa. Baloiça-se, distraída. Tem crescido muito e parece-me saudável. Acho que vai ficar por cá. Talvez acabemos a trabalhar juntos num livro ou em música, quem sabe.

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