Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Small Church

Small Church

A nossa necessidade de controlo é impossível de satisfazer

Como terá começado esta presença ubíqua da Meteorologia na nossa vida comum? Qual o movimento ancestral que haveria de se tornar em algo, haja ou não relevância, obrigatório em cada serviço noticioso?
Tendo em conta a gestão da sua horta, a minha avó tinha um particular interesse no Tempo, o programa diário que, creio, dava na televisão após o Telejornal em tons de cinza dos finais dos anos 70 do século passado. Ali estava uma ajuda incrível que completava o Almanaque Borda d’Água e a experiência de uma vida na leitura dos sinais do céu e da temperatura que lhe permitia planear o trabalho do dia seguinte.
Desde quando é que deixou de ser suficiente dizer que vai estar sol ou vai chover, ou que vai fazer calor ou frio ou nem uma coisa nem outra? Sabermos se chove no dia seguinte é bom, mas o que vale em termos de utilidade esse instrumento com a exatidão "microcentígrada" de que Castelo Branco irá ter uma ligeira subida de temperatura, esperando-se uma máxima de 25 graus, mais um do que ontem? Parece ser indispensável, por mais bizarro que pareça.
Não consigo deixar de pensar no exercício obsessivo da meteorologia como uma ramificação das artes divinatórias que acompanham a Humanidade há uma apreciável quantidade de tempo. No fundo, é isso mesmo: não só uma expressão indireta da vontade de saber o futuro para não se ser apanhado por algum golpe desfavorável do destino, mas também uma possibilidade de ganhar vantagem. A predição é uma das funções da Ciência. Já o desejo de Vantagem, especialmente na sua vertente Ganância, é um dos maiores incentivos à atividade humana.
Como é que a Ansiedade não haveria de imperar nos dias de hoje? A obsessão dos nossos tempos não é o Materialismo mas sim o Controlo. E o Controlo tem, acima de tudo, uma ligação estreita com o Futuro. Desabituados da aventura do Presente, quando não conseguimos prever o que vai acontecer, ou quando desconfiamos que o que vai acontecer não será o que planeámos, o coração, na sua vontade de explorar, enfraquece. O Medo e a Derrota abatem os braços. A Mente não consegue identificar caminhos imediatos, órfã, senão da Segurança, pelo menos da sua sensação
Como seguidor de Jesus Cristo, e admirador da filosofia Estoica, é fácil encontrar em palavras de há 2 mil anos a chamada de atenção para a armadilha da vontade  controlo. Mas, bem vistas as coisas, que sabe a nossa sociedade acerca dessa religião e desse modo de vida? Parece que pouco, quase nada. E eu sou um otimista.  Como é que os esquecemos e trocámos pela meteorologia de noticiário?

 

* O título deste texto é roubado ao ensaio de Stig Dagerman, "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer"

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D