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Small Church

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Escutar como escolha

O título do filme é a  A Viagem de Chihiro e faz parte do cânone afetivo cá de casa. Enviei-o para que as minhas filhas, que adoram o filme como os pais e a irmã, o pudessem mostrar aos primos mais velhos. Quando o meu irmão me disse que ele, duas sobrinhas e um sobrinho meu não tinham gostado do filme e tinham passado o tempo de visionamento a criticar-lo, senti como que um golpe de ameaça. Perguntei à minha filha de 8 anos acerca da reação dos primos e tio e ela respondeu-me baralhada, quase magoada, que não tinham gostado.

Como é que é possível lidarmos com alguém que faz pouco de algo que é importante para nós?

Um dos grandes mistérios e desafios para a ciência é a consciência (e assim mergulhamos).

Conforme os testes neurológicos vão avançando, com um cada vez maior mapeamento da atividade neurológica, para muitos neuro-cientistas os resultado parecem indicar que a mente, o nosso sentido de identidade, propósito e intenção, poderá não estar dependente do nosso cérebro. Para mim isto poderá ser exemplificado nos momentos em que sou confrontado com uma ideia diferente daquela que tenho acerca de um assunto e em que deixo que um modo diferente de ver o mundo entre na minha mente e eu consiga colocar lado a lado com o meu para que possa existir diálogo e aprendizagem. É que se eu sou o que acredito, se eu sou a minha cultura, se eu sou uma construção social, como me parece ouvir cada vez mais acerca de cada vez mais assuntos, como é que existe uma parte que é capaz de dispor o que acredito e o seu contrário em cima de uma mesa? Que parte é essa que é neutra? Melhor ainda: como é que eu me continuo a considerar "eu" apesar de o que acredito e penso ir mudando ao longo da vida?

Sejam as razões quais elas forem, seja a mente alma ou um lugar do cérebro composto de eletricidade e proteínas ainda não compreendido, a minha consciência existe, dá-me uma noção de identidade e interpreta e promove as minhas relações com o mundo.   

O reflexo inicial do cérebro, no entanto, e como máquina que é, é reagir ao diferente do que penso com agressividade. Se eu considero, por exemplo, que algo é bom, sinto uma imediata separação de alguém que me diga que isso é mau. Mais que separação, o antagonismo surge por preguiça e o confronto, seja ele verbalizado ou não, é usado de modo a tentar apagar essa opinião que considero agressiva o mais rápido possível da minha mente para deixar lá aquela oposta que me é confortável.

Foi isso, esse reflexo, que me aconteceu ontem com a reação do meu irmão e sobrinhos ao filme. Decidi depois colocar o meu gosto de lado, fora da equação, digamos assim, e colocar o alheio e antagónico para análise e entendi facilmente porque é que o meu irmão e sobrinhos não tinham gostado. E isso só pôde acontecer porque os conheço, não só porque tenho uma ideia de quais são as suas opiniões e gostos, mas também porque as suas ações anteriores me dão uma ideia razoavelmente credível dos seus temperamentos.

Achei também importante, apesar da mágoa da minha filha, que ela tenha podido perceber mais uma vez que não será possível que as pessoas, mesmo as que ama, gostem todas do que ela gosta ou vejam o mundo como ela.   

A melhor parte, no entanto, foi o ter enviado o filme para casa dos avós a pensar especificamente numa outra sobrinha que, no final de contas, terá sido a única a gostar.

No final, não mudei de opinião acerca de A Viagem de Chihiro e fiquei a conhecer um bocadinho melhor os meus sobrinhos e a confirmar o que já sabia acerca deles. Só ganhei ao colocar lado a lado a minha opinião com a que inicialmente me chocou. É que a alma talvez esteja precisamente aí, no poder contrariar os reflexos do cérebro que querem julgar sumariamente alguém. É dizer "Não. Eu escolho ouvir e analisar sem condenar primeiro". Extrapolando para níveis teológicos, para, por exemplo, Jesus perante a mulher adúltera, ou, por outras palvras, a evidência do livre arbítrio. Extrapolando para níveis tecnológicos é o abster-se de comentar aquela notícia ou post na net por impulso. Extrapolando para níveis profissionais é ouvir de facto o colega ou chefe que parece de má fé e com o qual a empatia é escassa. Extrapolando para o nível social é não julgar e falar mal de quem não conhecemos bem (voltemos à superfície). 

 

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