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Small Church

Small Church

Análise aos resultados eleitorais em forma de poema

Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

e a vida sem viver é mais segura.

 

Aventureiros já sem aventura

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que não fomos, do que não seremos.

 

Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido

os loucos, os fantasmas somos nós.

 

Rebanho pelo medo perseguido

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido.

 

                                                       Alexandre O´Neill

Em campanha - os comentadores

Os debates televisivos que marcaram a pré-campanha - e seguramente a campanha que agora entra na reta final - trouxeram para primeiro plano a figura do comentador. De facto, enquanto o candidato em debate não chegava a ter 15 minutos para ser ouvido, o espaço de comentário que se seguia extendia-se com facilidade por duas ou três vezes esse tempo. Isto veio realçar o papel  do comentador. E mostrar como muitos deles, ao melhor estilo dos congéneres do futebol, estavam mais empenhados em servir como caixa de ressonância da sua "cor", debitando ideias e sound bites previamente acordados, do que em comentar o que tinha sido dito. Isto foi de tal forma que muitas vezes me interroguei se o comentador tinha visto o mesmo debate que eu. 

Perante esta realidade, que, obviamente não é de agora, e tendo em conta o que nos vão dando as sondagens, uma das novidades que estas eleições nos poderão trazer é a renovação do panorama comentadorístico televisivo. Na verdade, se Chega e Iniciativa Liberal se colocarem acima, ou ao nível, de bloquistas e comunistas, terão toda a legitimidade para reclamar "tempo de antena" nesse espaço vital na disputa pelo poder - como vimos acima. E esse acesso ao púlpito mediático irá provocar uma rearrumação de forças que, em minha opinião, favorecerá as novas vozes e prejudicará as que já lá estão e terão de ceder espaço. Este acesso ao espaço de comentário será mais um contributo para consolidar a mundança que parece estar em curso. 

Em campanha - o animalismo

No fim do ano passado ficámos a saber que atualmente em Portugal se gasta mais em seguros de animais do que com seguros para crianças. Haverá, por certo, algumas explicações para a situação, como o facto de haver seguros obrigatórios para animais e os custos elevados com veterinários aconselharem alguma prevenção. Ainda assim, não deixa de ser um dado impressionante. Há uns anos uma pessoa próxima confidenciava-me, entre o choque e a ironia, que na sua declaração anual do IRS tinha diminuído o valor dedutível para as despesas escolares dos filhos, mas, em compensação, tinha passado a poder deduzir os gastos com o gato no veterinário. Não é novidade, portanto, esta sobrevalorização dos animais em relação aos humanos (neste caso, os humanos mais frágeis, as crianças). Aliás, para quem está atento, esta sobrevalorização manifesta-se em muitas facetas do nosso quotidiano. Nas prateleiras com comida para animais nos supermercados, por exemplo, que são duas ou três vezes mais extensas do que as direcionadas às crianças. Ou na própria lei do país, como demonstram duas intervenções recentes dos tribunais. Uma deixando sem qualquer pena a mãe que deitou ao lixo o filho recém-nascido (que não morreu apenas porque alguém passou perto e ouviu o choro). Outra, recuperando, a propósito da verificação da sua constitucionalidade, uma sentença de 2018 onde um homem foi condenando a dezasseis meses de prisão efetiva por ter matado uma cadela durante uma tentativa de aborto a sangue-frio. Ou seja, pelo bebé zero, pela cadela dezasseis meses. Sem dúvida que a fronteira entre humanos e animais se vai esbatendo, e essa não é seguramente uma boa notícia, pelo menos numa perspetiva cristã.

Nestas eleições o representante do animalismo é o PAN. Que se apresenta com obra feita. De facto, na Assembleia da República, trocando os seus votos, importantes num contexto de maioria relativa, por capacidade legislativa, o PAN foi o grande responsável pela transposição para a lei de princípios animalistas. Seguramente, quererá continuar o trabalho na próxima legislatura, ainda que em campanha a imagem que tente passar seja a de um partido inócuo, oscilando entre o extravagante e o “fofinho”.

Em campanha - erro de casting

Francisco Rodrigues dos Santos é um enorme erro de casting que pode custar muito caro ao CDS.

Em primeiro lugar, nunca um líder conservador se pode furtar ao sufrágio interno se quer apresentar-se com credibilidade ao sufrágio externo (um líder, em geral, percebe essa fragilidade e, mesmo contrariado e engolindo sapos, evita-a – veja-se Rui Rio).

Depois, também não pode vir lavar roupa suja em direto nas televisões, esganiçando-se, mesmo que o motivo seja um eventual apunhalamento pelas costas. Um conservador acredita no funcionamento das instituições, neste caso, os órgãos do partido, e não vem para a rua tentar legitimar, com queixinhas, a sua posição.

Por fim, e reportando-me ao debate de ontem com André Ventura, um líder conservador não pode deitar mão ao arsenal populista para tentar derrotar um populista. Por duas razões. Porque não ganha nada com isso, em termos de votos – para quem gosta, o original é sempre melhor do que a imitação. E porque mostra pouca convicção nos seus princípios. Combatividade é uma coisa, vale-tudo é outra.

Julgo que o CDS vai sair maltratado destas eleições. O grande desafio, neste momento, é o partido sobreviver a Francisco Rodrigues dos Santos.

Desobediência da má

"Desobediência qualificada"? Esta é da má, e, por isso, tem de ir a julgamento. Façam o favor de não confundir com a versão benigna, digamos até, saudável, dos duros anos de Passos Coelho, quando as "grândoladas" e afins marcavam presença quase diária nos telejornais.

Agora a sério: quantos foram a julgamento por ações semelhantes no tempo de Passos Coelho?

Em campanha - a novidade

Muito interessante este início de campanha. Independentemente da opinião sobre a validade do modelo escolhido – um duelo com pouco tempo para aprofundar ideias, os debates televisivos mostram, desde já, mudanças significativas no nosso panorama partidário. Talvez a maior de todas seja a mudança de lado da voz de protesto. De facto, não me lembro de ver comunistas e Bloco tão recatados na sua pose e tão ordeiros no seu discurso. Concerteza que mantêm a “cassete” e os maneirismos, mas tudo é feito sem chama, com a atitude atilada de quem se estabeleceu e sabe que quanto mais altas forem as ondas mais eles próprios se podem molhar. Isto tem a ver, como é óbvio, com a passagem pelo poder. Seis anos a dar a mão ao PS deixaram vazios os paióis do protesto - não há munições, quanto muito pólvora seca. Comunistas e bloquistas empenham-se agora em manter o núcleo dos mais convictos, e, mesmo aí, lutam para estancar a hemorragia, e esse esforço de sobrevivência deixou livre a bandeira do protesto. Que foi agarrada, no outro extremo, pela “nova direita” – Iniciativa Liberal e Chega. Precisamente porque ainda não se “contaminaram” com o poder, estes dois partidos estão a capitalizar o voto de protesto dos descontentes e dos anti-sistema. Isso tem ficado patente nos debates, sobretudo com André Ventura, no seu estilo populista, mas também no discurso mais elaborado de Cotrim de Figueiredo. Uma mudança importante que, julgo eu, terá reflexo na contabilidade eleitoral de dia 30.

Não era melhor esperar?

Os especialistas/cientistas que, no início da pandemia, diziam que o uso de máscara não fazia sentido ou, pior, era contraproducente, e que garantiam que com 70% da população vacinada, incluindo a totalidade dos grupos de risco, estaríamos prontos para retornar à normalidade, e que agora, quando os 70 chegam quase aos 90%, e os grupos de risco estão todos vacinados, defendem a manutenção das restrições e não descartam novos confinamentos, esses mesmos especialistas/cientistas garantem, com a mesma convicção, que não há qualquer problema em vacinar crianças. Dado o histórico de certeza não confirmada, não seria mais sensato esperar, tendo ainda em conta que as crianças são o grupo menos atingido pelo vírus? A verdade é que o medo não é bom conselheiro e os tempos não estão para sensatez.  

O planeta compreende

- Pai, vem-me buscar, a manifestação contra as alterações climáticas já acabou.

- Ok, saio já. Mas ainda devo demorar um bocado porque o trânsito nessa zona está complicado.

- A sério?! Que azar... é que eu ainda quero sair com o pessoal hoje à noite e, por este andar, estou mesmo a ver que vou perder a boleia.

- Pois... mas pode ser que ainda dê. Vou sair já. De qualquer maneira, não te preocupes, porque se perderes a boleia eu empresto-te o carro. 

Um pedido ao CDS

Era bom que o CDS parasse para pensar, percebesse qual o seu papel, e a importância dele, e agisse em conformidade enquanto é tempo. A direita precisa disso. Os eleitores, em geral, precisam disso. Na verdade, a clarificação à direita, que aconteceu com entrada do Chega e da Iniciativa Liberal no Parlamento, é provavelmente a grande novidade política dos últimos anos. As opções à direita estão, agora, definidas com suficiente precisão para, quem assim o desejar, poder votar de acordo com as convicções pessoais. Senão, vejamos:

Quem é liberal na economia e liberal nos valores/costumes vota Iniciativa Liberal;

Quem defende o liberalismo económico, mas nos valores/costumes é conservador, vota CDS;

Quem prefere as ideias conservadoras nos valores/costumes, mas, quanto à economia, tem simpatias estatizantes (os populismos são sempre estatizantes), segue a opção Chega.

Desta forma, e de um modo geral, o espectro da direita está preenchido. E isto é bom para ela, porque a clareza de ideias alarga o leque de opções. E é bom para os eleitores, porque podem pensar e decidir o voto segundo os seus princípios e convicções, deixando para lugar secundário a personalidade dos candidatos e os fait-divers lançados na comunicação social.

O que acontece atualmente no CDS é um passo atrás nesta clarificação: um partido conservador/liberal não se comporta assim. Por isso o meu pedido. Arrumem a casa, que ainda há tempo, e vão às legislativas com a compostura inerente aos princípios que dizem defender.

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