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Small Church

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Porquê?

Para fazer o mal é preciso primeiro que se acredite estar a fazer o bem."  

                                                                   Aleksandr Solzhenitsyn

 

Encontro a frase no início d' “O Manuscrito de Birkenau”, de José Rodrigues dos Santos, a segunda parte do díptico sobre a barbárie nazi durante a Segunda Guerra Mundial (conselho de simples leitor: se tiverem tempo, e estômago, leiam os dois livros). Solzhenitsyn referia-se a outros agentes do mal, que o tinham desterrado para os trabalhos forçados na Sibéria, mas as diferenças ideológicas ou de poder entre o nazismo alemão e o comunismo soviético são meros pormenores face ao princípio, expresso na frase, que assentava em ambos. Nesta universalidade das palavras de Solzhenitsyn está, precisamente, o motivo para a primeira nota. Universalidade até ao eu, como muito bem lembrou a Anabela quando, puxando o assunto para a atualidade, comecei a zurzir nos antirracistas que praticam o racismo ou nos democratas que não têm pejo em lançar mão da intimidação e da censura. Sim, a universalidade quando nasce é para todos. Por isso, cuidado.

Mas para além da tendência global, a frase trouxe-me uma pergunta: Porquê? Porque precisamos do bem como argumento para fazermos o mal? Porque não nos chega apenas dizer “queremos fazer mal, vamos fazer mal e ninguém tem nada com isso”? Até a maior selvajaria precisa de uma justificação “boa” para ser realizada (o livro de Rodrigues dos Santos trata precisamente disso). Porquê?

Momento

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No domingo passado, no Cacém, creio que as palavras de um pregador mudaram a minha vida, mostrando-me algo que eu, em quase meio século de cristianismo, nunca tinha entendido.

Hoje parece-me ter sido um momento decisivo. Gostava muito que sim.

É difícil explicar isto a quem não é cristão e ainda mais será a surpresa, dureza, alivio e espanto que foi estar no meio de um grupo e achar que as palavras que aquele homem dizia eram uma mensagem cirúrgica especifica para mim. Há muitos anos que não me acontecia.

A nossa necessidade de controlo é impossível de satisfazer

Como terá começado esta presença ubíqua da Meteorologia na nossa vida comum? Qual o movimento ancestral que haveria de se tornar em algo, haja ou não relevância, obrigatório em cada serviço noticioso?
Tendo em conta a gestão da sua horta, a minha avó tinha um particular interesse no Tempo, o programa diário que, creio, dava na televisão após o Telejornal em tons de cinza dos finais dos anos 70 do século passado. Ali estava uma ajuda incrível que completava o Almanaque Borda d’Água e a experiência de uma vida na leitura dos sinais do céu e da temperatura que lhe permitia planear o trabalho do dia seguinte.
Desde quando é que deixou de ser suficiente dizer que vai estar sol ou vai chover, ou que vai fazer calor ou frio ou nem uma coisa nem outra? Sabermos se chove no dia seguinte é bom, mas o que vale em termos de utilidade esse instrumento com a exatidão "microcentígrada" de que Castelo Branco irá ter uma ligeira subida de temperatura, esperando-se uma máxima de 25 graus, mais um do que ontem? Parece ser indispensável, por mais bizarro que pareça.
Não consigo deixar de pensar no exercício obsessivo da meteorologia como uma ramificação das artes divinatórias que acompanham a Humanidade há uma apreciável quantidade de tempo. No fundo, é isso mesmo: não só uma expressão indireta da vontade de saber o futuro para não se ser apanhado por algum golpe desfavorável do destino, mas também uma possibilidade de ganhar vantagem. A predição é uma das funções da Ciência. Já o desejo de Vantagem, especialmente na sua vertente Ganância, é um dos maiores incentivos à atividade humana.
Como é que a Ansiedade não haveria de imperar nos dias de hoje? A obsessão dos nossos tempos não é o Materialismo mas sim o Controlo. E o Controlo tem, acima de tudo, uma ligação estreita com o Futuro. Desabituados da aventura do Presente, quando não conseguimos prever o que vai acontecer, ou quando desconfiamos que o que vai acontecer não será o que planeámos, o coração, na sua vontade de explorar, enfraquece. O Medo e a Derrota abatem os braços. A Mente não consegue identificar caminhos imediatos, órfã, senão da Segurança, pelo menos da sua sensação
Como seguidor de Jesus Cristo, e admirador da filosofia Estoica, é fácil encontrar em palavras de há 2 mil anos a chamada de atenção para a armadilha da vontade  controlo. Mas, bem vistas as coisas, que sabe a nossa sociedade acerca dessa religião e desse modo de vida? Parece que pouco, quase nada. E eu sou um otimista.  Como é que os esquecemos e trocámos pela meteorologia de noticiário?

 

* O título deste texto é roubado ao ensaio de Stig Dagerman, "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer"

Turistas no Espaço

A minha primeira reação foi de escândalo perante o dinheiro envolvido. 300 mil euros por uma experiência de 4 minutos no Espaço. Milhões de pessoas em dificuldades e multimilionários apostam milhares por uma mera memória. E em termos ecológicos? Tanta conversa e depois pretende-se generalizar o uso de foguetões que poluem brutalmente o ambiente.
Mas depois penso melhor. Aí estão a invenção e o engenho que, se mesmo agora só beneficia uns poucos, no futuro poderá trazer incríveis avanços para milhões. Aí está, também, a evidência de que um paquete de turismo polui em 1 hora o mesmo que 1 milhão de carros, ou seja, que a ecologia, na verdade, não é assim tão importante para quase ninguém.
O escândalo enfraquece até se aquietar e deixar a sala. Muita coisa boa para a humanidade tem nascido de vaidades e egoísmos de alguns. A possibilidade desta subversão vale a pena.

Leão

Parece que ainda foi há pouco tempo que chegou. Já em cachorrinho de pouco mais de dois meses transportava com ele aquele ar de desafiador, convencido que era alguém e que mandaria na família toda. E por pouco não foi assim.

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Depois cresceu, guardando a casa de gatos, ratos, formigas e outros insectos, ladrando até a exaustão de todo e qualquer ser vivo do planeta Terra. Não havia bicho que nos assaltasse. Pelo caminho, também, um dentada num desmiolado que resolveu meter o braço para dentro do portão; e uma outra num vizinho de confiança que conhecia havia dez anos. Sempre a inovar...

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Mas aquilo que a mim pareceu pouco tempo é muito tempo na vida de um cão rafeiro de médio porte com genes belgas. Ao longo de um ano temos visto o Leão definhar, perdendo parte da visão, do andar e da capacidade de digerir. A rápida vida dos animais, acho, foi feita para nos farpar a alma e fazer sofrer. E fazer com que o final dos fins de semana sejam depressivamente tristes, antecipando o seu final. Em todo o caso nem quero pensar como seria se a sua vida fosse longa. Mesmo que logo no princípio eu percebesse que a vida com ele seria uma prisão e nem sequer gostasse do cão.

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O futebol não é paixão recente

O interesse pelo futebol não é coisa recente entre os portugueses. Em leituras por jornais antigos cá da terra descobri esta curiosa notícia, de 1938:

A fim de, pela T.S.F., poder ser ouvido o relato do desafio de foot-ball Portugal-Suissa há amanhã energia eléctrica a partir das 15 horas.

A eletricidade chegara à vila 10 anos antes, com a inauguração da Central, num troço do rio, e servia, sobretudo, para iluminação das principais ruas da cidade e das casas daqueles que podiam pagar tal luxo. Por isso, ficava disponível apenas quando a luz natural começava a desaparecer. No entanto, no dia do Portugal-Suiça abriu-se uma exceção: eletricidade às três da tarde para se poder ouvir o relato.  Quanto rádios (“T.S.F.”) havia na vila nessa altura? Por testemunhos de gente que viveu aqueles dias, apenas três ou quatro, não mais. Mas, por poucos que fossem, eram os suficientes para a Câmara ligar a luz mais cedo e manter o pessoal informado de como ia o jogo.

Portugal acabou por perder por 2-1, com o golo luso apontado por Peyroteo, mas a paixão pela bola já estava bem entranhada entre os portugueses.

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