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Small Church

Small Church

A fábula e a realidade

Uma fábula criada pelo grego Esopo (século VII a.C.), recontada pelo francês La Fontaine (século XVII d.C.) e adaptada, em verso, pelo português Bocage (século XVIII d.C.). A sabedoria dos séculos explicando o que aí vem, depois de superada a pandemia, e aconselhando-nos, pela milésima vez, a mudar de caminho.

 

Tendo a cigarra em cantigas

Passado todo o verão

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha

Que trincasse, a tagarela

Foi valer-se da formiga,

Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brilho,

Algum grão com que manter-se

Té voltar o aceso estio.

- "Amiga", diz a cigarra,

- "Prometo, à fé d'animal,

Pagar-vos antes d'agosto

Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso junta.

- "No verão em que lidavas?"

À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: - "Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora."

- "Oh! bravo!", torna a formiga.

- "Cantavas? Pois dança agora!"

 

Na verdade, em alturas de crise, é melhor estar num país rico e com baixa dívida pública do que num país pobre com uma grande dívida pública (leiam o texto, vale a pena pelas ideias e pelos factos claramente expostos). O inverno, as crises, as catástrofes, os acidentes, as “vacas magras” (o texto bíblico também nos ensina sobre o assunto) são realidades que devem ser tomadas em conta e precavidas. Pelas famílias e pelos governos.

Contem esta fábula às vossas crianças. Nesta altura, é uma das formas possíveis de ter esperança.

Registado e afastado

Enquanto vou registando os primeiros sinais de pânico na net, televisão e mercearia, há uma ideia que insiste em insinuar-se a cada nóvel expressão de desnorte alheio. Anda nisto há uns dias, aparecendo de vez em quando, sugerindo-se. Não a aceito e mantenho-a confinada a cantos escuros mas isso não a impede de falar. Aí está ela de novo, humilde: "Os países ocidentais deixaram de ser nações e é por isso que talvez a destruição venha a ser inevitável." Acho que não concordo. Nunca tinha pensado a coisa nestes termos tão definitivos. Parece exagero.

Mas quer dizer o quê? Talvez que os direitos individuais e o multiculturalismo tenham rasurado a coesão de grupo.

A única conclusão dela, da ideia, parece ser a de que não é possível agir em conjunto. Não há horizonte de submissão do individuo ao futuro da maioria. Penso que talvez seja por isso que chamar guerra ao combate ao vírus me confunde. É que numa guerra os direitos e segurança do individuo estão suspensos, não só pela ameaça mas também pelo interesse da nação. O que se passa hoje é o contrário: hipoteca-se o futuro de milhões durante décadas para salvar uns milhares porque existe o primado do cidadão singular, mais especificamente da sua saúde.

Mas, como disse, ainda não estou disposto a aceitar esta ideia que me rodeia que, sendo só uma, parece uma alcateia.

Certo e irónico

Tanto quanto sei, o passado dia 15 foi o primeira domingo, em 60 anos de história, em que a minha igreja não se congregou. Isto não quer dizer que tenha havido sempre culto na casa de oração. Algumas vezes, poucas, mas algumas vezes, as portas estiveram fechadas para a reunião se fazer noutro local, com outras igrejas. Desta vez, no entanto, não houve culto alternativo noutro lugar - os crentes simplesmente ficaram em casa. Culpa do covid-19, o causador da tal interrupção, que o João menciona aqui, que perturba, e muito, a existência.

Um dos principais argumentos que levou à inédita decisão da igreja foi o “bom testemunho”. Quem conhece o meio evangélico sabe da importância dada a este “bom testemunho”, que, numa versão sucinta, pode ser definido como o confirmar, e reforçar, com actos as palavras pregadas. Neste caso, se as autoridades aconselhavam o encerramento das igrejas, entre outros locais de reunião pública, como parte do plano de prevenção da epidemia, então, em nome do respeito pelas autoridades instituídas e do amor ao próximo, a atitude tinha que ser acatar.

Seja como for, e por muito acertada que a decisão tenha sido, não posso deixar de sorrir com a ironia de fechar uma igreja para dar bom testemunho. Noutros tempos esse bom testemunho era continuar a reunir fiel e abertamente domingo após domingo apesar do escárnio e da perseguição. Agora significa fechar as portas e ficar toda a gente em casa. Irónico, sem dúvida. Mas correcto, também sem dúvida. Um bom exemplo de como cada acto precisa ser ponderado no seu contexto.

São os outros

Através do Ouriquense, leitura habitual, cheguei a esta frase de António Guerreiro, no Público:

"O apocalipse, começamos a perceber, dá-se sob a forma da interrupção: interrupção, por exemplo, do fluxo turístico em Veneza, que antes colapsava sob o peso do turismo e hoje colapsa sob a forma de uma cidade-fantasma."

É uma reflexão genial e fez-me entender, creio, a única razão porque o vírus é imparável: não tanto pelas suas características, mas porque a alteração do habitual é vivida como um apocalipse íntimo. Notei-o quando soube que um octogenário meu conhecido havia insistido em correr o risco de ser infetado numa viagem de carro com o filho. Tenho certeza de que esse homem não pensou que poderia infetar a esposa quando chegasse a casa. Terá certamente, isso sim, negado a evidência em prol da sua vontade de que esse dia fosse como todos os outros similares dos últimos 50 anos. Não aceitou que a sua noção de dever profissional, a sua rotina de uma vida, fosse posta em causa pelos avisos da ciência e por milhares de mortes de seniores como ele. Ninguém esperava de si essa viagem, ninguém lha exigia, e no entanto ele fez-la, talvez achando para si mesmo que o contrário seria um golpe demasiado duro na sua cosmovisão pessoal. E não está sozinho. Há milhares de pessoas a pensarem e agirem como ele, aterrorizadas por esse apocalipse da interrupção, seja o jovem que se encontra com o seu grupo de amigos para fumar uns charros e passar umas horas a discutir modos de dominar no Fortnite, seja a senhora recém-reformada que se debruça por cima da mesa do café para confidenciar, ou escutar melhor a uma como ela. mais uma mexeriquice sobre vidas alheias, seja o comerciante que continua com as portas abertas porque nem consegue imaginar o que fazer em casa, principalmente sem desporto ou derivados a acontecer.

Sobre tudo isto divago sem certezas e afundando-me a cada frase na arrogância movediça que me caracteriza. Traindo as minhas convicções de ser justo com o outro, recuso-me a aceitar como inevitável este tempo de exceção, arranjando no olhar que lanço aos outros a culpa social e moral que finja compor o desatino com que a minha pobre mente enfrenta a incerteza (como estaremos daqui a uma semana? quanto tempo demorará isto? quantos milhões irão perder o emprego?)

Finjo-me assim aflito e lúcido com este post. Esforço-me por aparentar solidez e autocrítica. Na verdade, não estou e não sou. Não consigo ainda estar aflito e todo este texto nasce do aborrecimento de não ter falado com ninguém com mais de 9 anos de idade durante o dia todo. Que sei eu ao certo das razões do octogenário, do jovem, da senhora recém reformada ou do comerciante? Nada. Usei-os como usei o Ouriquense ou o António Guerreiro. Usei-os como todos nos usamos uns aos outros quando  falamos de falhadas responsabilidades alheias como razão de tentamos dar uma última esquiva aos nossos apocalipses pessoais. No fundo, é simples. No fundo, é fácil. No fundo, são sempre os outros.

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