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Small Church

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O conceito de Joacine precisa de ser redefinido

O Livre retirou a confiança política a Joacine Moreira e, seja qual for a decisão desta (abandonar ou não o Parlamento) esta novela acabou. Haverá ainda algum foguetório de fim de festa, é certo, mas, para todos os efeitos, o palco ficará vazio.

Aos urbanitas de classe média alta da capital, e restantes aspirantes a classe média alta da capital que pululam em redações, companhias de teatro e estágios em agências de marketing, que colocaram Joacine no Parlamento e a quem nunca antes destas legislativas tinha passado pelas cabeças progressistas votar no partido da papoila, resta voltar a contragosto ao Bloco numa sensação de metadona, algo que já não dá nem metade dos pontos progressistas de outrora em jantares de gente sofisticada e fumada e cocaínada e abstémia e vegan.

É dramático. Quase tanto como o meu exagero descabido. Mas é preciso uma coisa nova. Estes votantes crónicos na esquerda  parecem alimentar-se de novas sensações ideológicas e tecnológicas. Já têm o iphone X e agora querem a Joacine II. Será cada vez mais difícil uma pessoa mostrar aos outros que está na vanguarda progressista, e que tem uma moral impecável  em Lisboa, talvez também em Coimbra, de certeza no Twitter, depois de se ter votado no Livre em 2019. Empurrou-se a fasquia para demasiado alto e a mulher negra e gaga já perdeu a frescura que permitiu o entusiasmo ao votante de ser o mais correto, puro e fixe e porreiro de todos. Estou convencido de que só a transexualidade de um candidato poderá voltar a dar aquela sensação de chuto narcótico  e espevitante ao progressista que joga Padel. Joacine Katar Moreira é hoje um conceito obsoleto e é preciso inventar qualquer coisa para daqui a 3 anos e tal.

O partido Livre irá morrer, ultrapassado pela ecologia do PAN, pelas causas fraturantes do Bloco, pela honestidade intelectual de Rui Tavares e por não ter nenhuma cara laroca e virtuosa em termos identitários que bombe no Twitter. Quanto a Joacine, a palhaça triste, ficará a fazer o seu número com André Ventura, o palhaço alegre, enquanto se mantiverem no Parlamento. Ambos precisarão muito um do outro ao longo da legislatura.

Eu sou um dos que acha que é útil que Joacine fique no Parlamento e que ouse criar um novo partido claramente identitário. É a melhor solução para todos. Embora por razões diferentes, ficaríamos contentes, eu e os moços e moças de classe média alta da capital. E o que o pessoal quer é estar contente e sentir-se do lado certo da História e da Moral.

A decadência da imprensa ao de leve

A diminuição dos resultados de vendas da imprensa escrita é acentuada. Discute-se o apoio do Estado para garantir a sobrevivência dos jornais, alertando-se para o papel fundamental daqueles para a saúde da democracia.

Existirão muitas razões para a atual situação de descrédito dos jornalistas. Uma delas será a desconfiança no público leitor para a promiscuidade mal disfarçada entre jornalistas, classe política e poderosos. Outra será a crise de identidade que a própria profissão vive, não só com o advento da caça ao clique na web, mas também com a confusão entre opinião, e educação considerada correta do Povo, e a sua missão primordial de informar e esclarecer.

Quase nada sei em relação ao plano de paz para a Palestina apresentado pela administração americana, mas quando uma capa de jornal tem uma chamada para algo que se apresenta como notícia, que aparece no miolo do jornal como notícia, mas que, na verdade, é um artigo de opinião baseado em citações de outros artigos saídos em imprensa estrangeira de um determinado espetro político, estamos esclarecidos e resolvidos: jornalismo travestido que é fraude, como este, não pode ser apoiado por ninguém a não ser pelos seus leitores e patrocinadores comerciais. Saúde-se, ao menos, a coerência do jornal Público neste assunto.

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Primeiro mês do primeiro ano da década de 20 do século XXI

No Reino Unido, o evangelista Franklin Graham viu a sua campanha cancelada na cidade de Sheffield porque um grupo de defesa dos direitos dos homossexuais o rotulou de "homophobic hate preacher" e considerou que "Graham's appearance may incite hateful mobilization and risk the security of our LGBTQ+ community" (em inglês para não haver imprecisões na tradução). O que fez Franklin, filho do falecido Billy Graham, para merecer tais considerações? Incitou à violência contra os homossexuais? Usou linguagem vexatória e degradante? Não. Ele apenas considerou, e considera, como muitos que aceitam a Bíblia como a Palavra de Deus, que a homossexualidade é pecado e que o casamento requer, como premissa fundamental, um homem e uma mulher. Onde está o “discurso do ódio”? Onde está a “odiosa ameaça à segurança física” dos homossexuais”? Não existem, claro. Opiniões, conceções diferentes do mundo e das relações humanas, não são ódio nem ameaça física. Mas isso pouco importa. Porque em Sheffield o objetivo principal foi alcançado: a censura, o silenciamento, a restrição à liberdade religiosa e à liberdade de expressão.

Na mesma semana, na Austrália, a tentativa de silenciamento caiu sobre a “ultra-religiosa“ (interessante adjetivo) Margaret Court, ex-tenista detentora do recorde de torneios do Grand Slam. Desta vez pretendia-se que o seu nome fosse apagado de um court de ténis. Os pretextos eram os mesmos que calaram Franklin Graham em Sheffield.

Não foi o mais quente mais isso não interessa nada

Afinal 2019 não foi o ano mais quente de sempre! Já sabiam? Não? Eu também não. Tive que ir a um recôndito relatório do IPMA para confirmar aquilo que já desconfiava, o mês de janeiro ia bem entrado e não havia maneira de aparecer nos telejornais  nem nas primeiras páginas da imprensa escrita a notícia tremendista confirmando o novo recorde de temperatura. Quando no pico de uma onda de calor, ou na preparação da plateia global para um dos regulares foruns sobre alterações climáticas , bastava o "tudo indica que" e o "é quase certo" dito por alguém bem cotado no ramo para que a afirmação de que 2019 era o ano mais quente de sempre fosse apregoada como realidade sem volta a dar. Afinal... 

Nada de novo (refiro-me à atitude da imprensa). Aqui já tinha escrito sobre o assunto e mantenho as mesmíssimas conclusões. 

Com o vírus na China, em direto para a celebração de recorde mundial

Aconteceu-me hoje de manhã. É raro um tipo dar-se conta de que está viver um momento sem precedentes. A estatística responsável por esta impressão é não existir paralelo, na História da Humanidade, no que diz respeito ao número atual de pessoas de quarentena. Sendo certo que dizer “Eu estava vivo quando se bateu o recorde universal de pessoas em quarentena!” poderá não parecer muito impressionante quando os meus netos mo ouvirem, a verdade é que eles, como a grande maioria dos netos que têm existido tende a agir em relação ao passado, não serão capazes de perceber como dias tão antigos como janeiro de 2020 puderam ser extraordinários a tantos níveis diferentes.

Um deles é a dúvida acerca das notícias, oficiais e não oficiais, que vão chegando da China. Por um lado temos um regime autoritário que gosta de controlar tudo, com um fraquinho especial pela Internet, e do outro um momento em que as notícias falsas são comuns. A manifestação da dúvida (se um tipo deve entrar em pânico ou não) deriva de os governantes chineses dizerem que ao dia de ontem havia cerca de 2 mil infetados e, ao mesmo tempo,  existirem vídeos de (talvez) médicos chineses a dizerem que já há mais de 90 mil. 

O rascunho do filme catástrofe parece estar a ser escrito conforme os dias vão passando, os mais recentes parágrafos constatando que o vírus é assintomático durante alguns dias (ainda não se sabe quantos) e que o medir a temperatura, na maioria dos casos, não serviu de nada. Ora, sendo esta a principal medida que está a ser tomada por esse mundo fora quando alguém chega a um país vindo da China , percebe-se aí a falha habitual que Hollywood tão bem sabe explorar e que costuma ser decisiva para a implementação inicial do caos. Complementada por já se ter confirmado que também a propagação do vírus é assintomática, o projeto de longa-metragem está quase a passar de um mero projeto de série B para o degrau seguinte.  Esperemos qua não chegue ao nível Godzila.

O Espírito da Paz

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Sobrevivente da última razia feita pelo olx, não sei bem porquê, sobrou "Espírito da Paz". Não sei porque compraram a correr algum do lixo que fui empilhando, poupando para mim aquilo que bem poderia ter tido razão para ser levado. Na minha fraca memória, esqueci, ao longo de muitos anos de mágoa severa, que este disco, que um dia parei abruptamente de ouvir a fim de continuar a respirar é, paradigmaticamente, o vértice da música portuguesa. Vértice ou aresta, não sei. É como se fosse uma única onda num imenso mar: A música portuguesa antes de Espírito da Paz; a música portuguesa depois de Espírito da Paz.

Mas foi precisamente esse que ficou.

Então, à antiga, que eu não apanho boleias de modernices com facilidade, ripei para o computador que já não tem suporte do fabricante mas tem leitor de CDs, e daí para o telemóvel que, à falta de melhor, tem leitor de mp3.

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Não faz muito tempo que relatei que um tipo de quem já não me lembrava de alguma vez tivesse existido, voltou, teletransportado a partir das entranhas da juventude. Reapossou-se da minha cabeça, do meu espírito, da minha fé. Só não sabia, então, que a existência desse moço é a prova de que o sangue ainda me corre. E posso explicar.

Do equilíbrio entre a sanidade e o sentir, saí de casa, bem cedo, como sempre faço, em busca de divina luz. O frio cortava-me a testa e fazia ressaltar a mesma tristeza doce de que é feita a calçada brilhante de Sol prateado rente. Os meus passos gelados eram absorvidos pelo som nos fones.

A última dose dos três génios. A minha cabeça debaixo do fogo cerrado do timbre de anjo de Teresa Salgueiro perfumando os meus passos, os nylons com quase trinta anos de ressonância de Pedro Ayres Magalhães apoiando o meu pescoço torcicolado de frio, os acordes mágicos de Rodrigo Leão fazendo os meus tennis verdes velhos flutuar, e à uma muito bem acompanhados por outros parceiros da mesma galáxia. Todos emsemblados valendo em somas de partes sinergiazadas ainda mais do que já valiam, e valem, cada um por si.

Já me tinha esquecido que era assim que se faziam sentimentos. Esqueci, com intervalo de décadas, o que era arte, ou engenho similar. Aquilo que nos arranca de quem somos, e nos carrega às cavalitas para outro sítio. O mesmo sítio de onde vêm outros de nós para se integrarem em quem somos agora para que tudo volte a fazer sentido.

Integrei e abracei o moço, tal como me mandaram.

(Este post é dedicado ao João Leal, o melhor e mais criativo artista que já conheci.)

Hollywood e o Carniceiro de Wuhan entram num bar e encontram o Batvírus

Numa era de globalização, um vírus encerra cidades na China. O mundo passa rapidamente do “não há razões para pânico” para um nível de alarme de controlo rigoroso de quem transita entre países. Uma nova palavra pairará durante as próximas horas no éter e as pessoas vão passar a dizer “coronavírus” enquanto não se inventar um nome mais fixe e mediático. Aposto em algo relacionado com morcegos, como “Batvírus”, ou com a cidade de Wuhan, como (exagerando) “O Carniceiro de Wuhan”.  

Falar da hipótese de um vírus imbatível que dizime grande parte da população chinesa é o mesmo que dizer que a Humanidade colapsaria rapidamente, quer demográfica, quer economicamente. É Hollywood e o Apocalipse de João de mãos dadas.

Felizmente é seguro que não irá acontecer. O vírus é razoavelmente pacífico e os sintomas fáceis de controlar. As probabilidade de se morrer quando se caí nas suas garras mínusculas são só de cerca de 5%.  Arrisca-se mais a visitar a Academia de Alcochete ou ter algum tipo de relação com as contas bancárias da Isabel dos Santos. E se o virus se mostrar surpreendentemente capaz, o ser humano fintará o Juízo Final porque é rápido a encontrar soluções quando a coisa não envolve conflitos de interesses económicos ou religiosos.

Fico a pensar que é o inesperado que maior impacto tem nas nossas vidas como sociedade. Um vulcão, a morte cerebral das Bolsas no outro lado do mundo, uma crise financeira dos Bancos, o eclodir  de uma guerra em lugar de petróleo ou uma epidemia relâmpago. São coisas que acontecem de surpresa. Apesar de a nossa sociedade viver do alarme em relação à possibilidade de destruição do mundo por outras causas, como o Aquecimento Global, por exemplo, a malta é sempre apanhada desprevenida. No fim do dia é o inesperado que trata de tudo, com a suprema ironia de, na verdade, a Natureza parecer ter mesmo uma grande vontade de nos matar.

A última metamorfose do artista

A construção sólida e bem fundamentada da resignação, perante a evidência da minha não excecionalidade, chegou tarde mas impôs-se sem ser contrariada. A ingenuidade foi assim tapada na mesma profundeza que o sonho criativo, que acreditei durante grande parte da minha vida como a única possível possibilidade de alguma vez conseguir algum destaque neste mundo. Terraplenada pela satisfação de ninguém, nem mesmo eu, estar à espera de que eu sirva para algo mais do que me manter vivo, a ambição jaz agora no escuro, quieta, fria e esquecida de si própria e eu dela.

Vejo-me nesta nova era geológica particular, seguindo o ritmo abafado e suave, como eu gosto (ao tato parece algo como veludo), da rotina da paternidade e do casamento. Sou um homem calado e sem vícios, íntegro e confiável, cada vez mais solitário e sem amigos, que descobre em si hábitos deixados para trás na adolescência como o desenho, o prazer de alguns momentos a sós e a música. Sei que esta foi a última mudança. Até ao fim serei este, é dos livros científicos, e fico contente por a roleta ter parado aqui, neste sítio que, embora pouco emotivo, é tão confortável.

Esperei a vida inteira pela meia-idade.

Avisos

Mais do que críticas cinematográficas, de quem realizou ou produziu bem, de quem fez a fotografia, que estúdio ou país de origem, ou mesmo o ano, devemos, em alguns casos, muito específicos, prestar atenção a statements a que outros se deram ao muito trabalho de produzir para cinema. Há alguns filmes que, independentemente de se gostar muito ou não, ou dos seus respectivos quadrantes ideológicos, contém argumentos que, pelo menos para pessoas simplórias ou paranóicas, como eu, funccionam como verdadeiros avisos à navegação.

Hunger Games (apenas o primeiro, os outros são réplicas fraquinhas para rentabilizar o franchise), Surrogates, The Giver, Elysium,The Circle, In Time, e até Wall-E, - e agora a série The Feed-, merecem considerações e melhor reflexão ao nível da filosofia, religião, ciência e até indústria, a fim de que consigamos perceber o que andamos cá a fazer.

E prontos, era só um aviso.

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