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Small Church

Small Church

A Redenção ao estilo Ateu Urbano

A Ecologia, para muitos, é como uma religião.

A religião, como objeto de estudo da Antropologia, é um sistema coletivo de crenças com líderes (Al Gore ontem e Greta Thunberg hoje) cujos seguidores estão dispostos a mudar de comportamento e a contribuir segundo as suas diretrizes. A religião explica o mundo de um modo total (o Estado de Emergência Climática Global proclamado pela ONU), atribuindo-lhe significado (a vida só vale a pena, como em ter filhos, se recuperarmos a Natureza).

A Ecologia em geral, e a das Alterações Climáticas em particular, tem a característica de mimetizar a religião cristã no seu sistema de existência prévia de um Éden (planeta Terra em estado virginal) que o pecado (a intervenção humana) tornou inacessível. Afastado o Homem de Deus, para que aquele possa voltar a estar ligado a este (para voltar a viver num planeta puro) é necessário reconhecer e expiar o pecado (ser ativista) através da fé (não duvidar e não aceitar argumentos discordantes) distinguindo-se assim do infiel cujo valor, devido à sua persistência na maldade, é desprezível e merece de um modo natural a condenação.

A explicação não é minha. É de Michael Crichton e tem 15 anos. Valem a pena os 10 minutos pelo assombro que a lucidez apresentada causa.

Dostoiévski disse que existe no Homem um vazio do tamanho de Deus e eu concordo.

 

Crescer

- Pai, podes medir-me?

- Posso. Achas que estás mais alta?

- Sim, parece que cresci um bocadinho.

Costa direitas e pescoço esticado, a lombada grossa do livro num angulo de noventa graus com a guarnição da porta e o risquinho azul na madeira. A fita esticada confirma:

- Sim, tens mais um centímetro.

- Eu sabia!

A alegria da Margarida faz-me lembrar que também eu tive uma tábua onde ia riscando os meus progressos em altura. Nem sempre havia motivo para celebrar. Às vezes o ângulo da lombada do livro pecava por falta de rigor e a batota pagava-se na medição seguinte, quando o risquinho não ultrapassava a marca que já lá estava. Mas, regra geral, havia um avanço e quando isso acontecia a minha satisfação era igual à da Margarida. Até que um dia o crescimento abrandou, os riscos foram ficando uns em cima dos outros e a tábua deixou de ser usada e foi esquecida na arrecadação.

Agora é a vez da Margarida. Eu fico contente por ela.

Deve Ser de Mim

Deve ser de mim. Sou eu que não entendo.

Mas então agora a medicina não está cada vez mais desenvolvida? Saúde melhor, sim. As redes sociais não nos aproximam mais? Comunicação melhor, sim. Melhores negócios. A tecnologia não arranjou maneira de o nosso trabalho estar facilitado até ao carregar do botão? Trabalho melhor e rentável, sim. Não estamos todos rodeados de cada vez mais bens materiais? Melhor produtividade doméstica, sim. Não temos todos acesso a futebol, cinema, televisão, gadgets, etc.? Melhor, maravilhoso lazer, sim.

Então, afinal, porque é que os antidepressivos e ansiolíticos nunca foram tão vendidos em Portugal?

 

Bem, se calhar porque tudo isto é a superfície. Talvez a "felicidade" não venha agrafada com estas coisas. Talvez ainda não tenhamos chegado ao caroço do que procuramos. Ou talvez nos tenhamos, simplesmente, afastado dele.

Mas isso sou eu a falar. Deve ser de mim. Sou eu que não entendo.

Do complexo de épico

As ideias peregrinas têm vindo a chegar a este lugar cada vez mais espaçadas. Passam-se agora anos sem que uma me apareça com aquela secura de corpo característica de viagem tão solitária como longa. A situação desgosta-me. Gosto de conhecer ideias peregrinas. Cometi mesmo a certa altura o erro de pensar que uma vida, para ter valor, devia ser alimentada por esse tipo de criatividade involuntária que são as ideias que brotam sem que as procuremos. Na sua cada vez maior ausência dos meus dias, acabei por alterar as regras e adotei as ideias dos outros, mentindo-me que eram minhas. Demorei demasiado a perceber que a minha vida mental tem um grande potencial para ser desertica e que, na verdade, como adulto é raro assinalar algo de novo na paisagem. Acho que é por isso que se procura no entretenimento, eu sobretudo na ficção, outros nas notícias, um paliativo para essa secura.

Há dias uma ideia peregrina cansada sentou-se na minha sala. Embora surpreendido, porque já não via uma há muito tempo, ofereci-lhe água e descanso. Em troca, e talvez por cordialidade (digo-o porque o seu olhar me pareceu o de quem achava que eu não estaria à altura de a colocar em prática), ela revelou-se. Aconteceu ao final da noite. Estava deitado no sofá. Acabara de desligar a televisão, entediado. Doendo-me os olhos, não consegui pegar no livro que ando a ler. Coloquei as mãos atrás da cabeça e fiquei a olhar para o teto. Pensei: “Já não tenho quase nenhuma curiosidade pela ficção dos outros” e a seguir “É mesmo verdade. Sinto-o. Já quase não tenho curiosidade pelos frutos da imaginação dos outros.” Foi então que a minha visitante surgiu, oriunda de um lugar misterioso, e me disse, depois de recuperar um pouco da cor, “Chegou a altura de teres curiosidade por ti e pela tua imaginação. Aplica a tua curiosidade ao que desconheces dentro de ti e ao que poderá materializar. Já não vais para novo. Dedica o tempo que te resta a isso, a saber do que é capaz a soma das tuas partes.” Ficámos em silêncio. Pensei, sem lhe dizer por pudor, que fazia sentido e que a achava uma bela ideia. A seguir perguntei-lhe porque demorara tanto a chegar já que ela me teria dado jeito há umas décadas atrás. Ela sorriu e disse “Tive que seguir aquele trajeto complicadíssimo que tens vindo a desenhar. Podia atalhar, mas isso seria aldrabar-te.” E piscando-me o olho “E com certeza que não querias que eu fizesse batota. Assim não valeria a pena, pois não?” Respondi que sim com a cabeça, envergonhado por, afinal, ser eu o responsável por só agora a conhecer “Claro que não. As coisas devem acontecer no tempo certo.” “Isso!”, respondeu, fechando os olhos e esticando as pernas num espreguiçar.

Enquanto escrevo isto, a ideia peregrina está sentada em cima da mesa. Baloiça-se, distraída. Tem crescido muito e parece-me saudável. Acho que vai ficar por cá. Talvez acabemos a trabalhar juntos num livro ou em música, quem sabe.

Acordar

A tentativa de silenciamento, de censura, dos que levantam a voz para denunciar as arbitrariedades chinesas, acordam-nos para a verdadeira natureza do poder em Pequim. Na verdade, embalados pelos ienes derramados aos milhares de milhões nos governos, nas empresas e na comunicação social ocidentais, parece que nos esquecemos que o regime chinês é de partido único, com uma máquina de vigilância pública e de controlo da liberdade de pensamento e da liberdade de expressão própria desses regimes. O caso do protesto de Ozil, jogador do Arsenal, é revelador. Pela tentativa de silenciamento e de censura por parte dos chineses. Pela “distração” ocidental em relação ao assunto. Porque tem que ser a reboque das declarações de um jogador de futebol que chegamos a saber que, entre outras violências, “as autoridades chinesas mantêm mais de um milhão de uigures em campos de doutrinação na região de Xinjiang, no extremo oeste do país, numa campanha de assimilação cultural”? Não devia ser esta informação de fácil acesso aos que estão no Ocidente? É que, se virmos bem, Guantánamo ao pé disto é uma brincadeira.

A boa notícia é que, aparentemente, a federação inglesa não vacilou perante a pressão censória. Desta vez. Mas, dado o histórico recente, não é descabido temer que a resistência seja de folgo curto.

Babettes Gæstebud

"A Festa de Babette", em português, ou melhor, Babettes Gæstebud, originalmente, é um filme de eleição que não pode ser entendido em boa parte da sua plenitude senão por cristãos protestantes de berço ou, no mínimo, terão todos os outros de fazer uma certa acrobacia mental, arrasada de preconceitos para o conseguir.

Do drama amoroso da juventude até ao final feliz dos maratonistas da vida, passando pela discreta pura comédia feita de caviar e sopa de tartaruga, não pode o espectador passar incólome a uma tão fina narrativa tricotada por pinças feitas de arte, tal como incólome não pode passar a falibilidade da fé posta à prova de cada personagem, a ocorrer debaixo do céu agreste da Jutlândia do século XIX, e pelos motivos mais surpreendentes que possamos pensar.

Em suma, de tão esmagadoramente simples e modesto, porém profundo, meticuloso e delicioso que é, ou não fosse falado em dinamarquês, este é o filme que Hollywood jamais poderia realizar.

Para minha felicidade.

Sexta-Feira Santa

Não é que eu seja um cliente importante. Raramente vou a shoppings e quando vou não me meto em aventuras de compras malucas. Por isso, não, não sou um cliente com opinião a ter em conta.

Mas se "black friday" é sinónimo de chamar mais pessoas para fazer compras, comigo tem um efeito contrário: Esse é um dia perfeito para ser impossível me apanharem por lá.

O bom desses dias é que cá fora o espaço fica bastante mais livre e respirável.

Como a sua Falta de Noção, o Ativismo do PAN é um poço sem fundo

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Por vezes as implicações de alguns factos são tão desanimadoras que me apetece desistir de querer saber o que quer que seja. Estou convencido que este tipo de inanidades e vulgarização do trabalho político tem parte de leão nos 4,8 % do Chega nas sondagens dois meses depois das eleições. Pessoalmente, um país com o Chega com 15% ou 20% parece-me demasiado arriscado para o meu temperamento. Com esta proposta do PAN que irá ser votada na Assembleia da República Portuguesa, uso a mesma estratégia do que com as Alterações Climáticas: espero que seja tudo um embuste e sigo com a minha vida.

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