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Small Church

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O preço de deixar passar o sonho

Nos papéis que guardo no sótão encontro um artigo tirado da net e impresso lá pelo ano de 2001, 2002. É sobre Zou Yulin, o primeiro chinês a dar a volta ao mundo a pé. Entre setembro de 1998 e junho de 2000 Zou percorreu cerca de 12500 quilómetros, em 16 países e 4 continentes, cumprindo, de mochila pesada às costas e sem telemóvel, GPS e outras comodidades actuais, o trajecto de volta ao ponto de partida, ganhando assim um lugar de destaque entre os caminhantes chineses.

Mas não foi a história de Zou que chamou a minha atenção neste reencontro com os papéis antigos. Numa parte do artigo, quando explica o porquê de tão grande caminhada, o globetrotter chinês refere Mao Tsé-Tung e diz que também o chefe da revolução chinesa desejou, na sua juventude, dar a volta ao mundo a pé. Acabou por não o fazer e ficar-se pela Grande Marcha, coisa para uns 10000 quilómetros, que constituiu uma das marcas da conquista comunista do poder.

Ao saber do desejo não cumprido do Presidente Mao, dei comigo a pensar como teria sido a história da China, e do Mundo, se ele tivesse tido a coragem para concretizar o sonho da juventude. Punha-se a caminho, gastava uns bons anos a cumprir a tarefa, via a aprendia muita coisa, e quando chegasse, se chegasse, seria um homem mais maduro e pragmático, menos disponível, julgo eu, para se meter em revoluções, fossem elas militares ou culturais. É certo que Zou Yulin perderia o seu lugar na história como primeiro chinês a dar a volta ao mundo a pé mas, em contrapartida, ter-se-iam poupado umas dezenas de milhões de mortos e a China teria tido a oportunidade, pelo menos a oportunidade, de seguir pelo caminho da liberdade e da democracia. Divago? Eu sei. Quem pode saber o teria acontecido? Mas fico-me com esta nota: um sonho de juventude por cumprir pode ter consequências graves, tanto para o próprio como para os que estão à volta.

Feito de mistérios

Perguntam-me por uma pequena cicatriz a alguns milímetros do olho esquerdo. Aponto um episódio de infância como hipótese, mas confesso que não sei qual a sua origem. Imagino que se a causa tivesse sido uma certa rasteira feita pelo Miguel, o facto de aquele bico do armário não me ter perfurado o olho esquerdo podia ser considerado um milagre dos grandes e que ainda hoje se falaria disso.

Sei que nenhum dos meus familiares se lembrará do episódio e que, por isso, tenho uma marca misteriosa no corpo que não consigo justificar. É uma entre muitas. E fico a pensar nisso, em quantas coisas inexplicáveis, físicas e mentais, me compõem. Sou como um terreno exposto aos elementos, repleto de sulcos misteriosos feitos por factos que esqueci e com uma topografia única semelhante a uma impressão digital.

Como é que alguém pode achar que se conhece muito bem quando a sua vida é feita de tantos mistérios?

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