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Small Church

Small Church

Notícia

Só para dizer que os andorinhões já chegaram. A semana passada, depois de passar a chuva, ouvi-os/vi-os (por esta ordem) pela primeira vez. A tradição primaveril tornou a cumprir-se, o que por si só, nos tempos que correm, é uma notícia reconfortante. 

Demasiadas histórias

Tenho a perceção de que tenho demasiadas histórias minhas e alheias a ditar o que devo pensar. Penso que o melhor é deixar de importar as opiniões e estímulos exteriores.

A vida mental, a partir de certo nível, é uma tentativa formidável de simplesmente contornar a desorientação que as histórias que me chegam do exterior me causam.

E as internas? As histórias que me vou contando acerca de mim, muitas das vezes nós apertados que não deixam fluir a tranquilidade, que não resolvem e só travam os gestos de felicidade?

Viver o presente não é o mesmo que estar atento no presente. Posso viver o presente atento somente ao que perdi, e sofri, e ao que não tenho e que gostaria de ter.

Dar um destaque primordial ao momento que estou a viver, mitigando ao máximo as histórias que recebo de mim e dos outros, parece ser o caminho. Devo confiar que atrás de mim tenho o gesto de perdão de Cristo na cruz e no presente a ação do Espírito Santo. Quanto ao futuro, o único que existe, e que me diz respeito, é o que me é sinalizado por Deus. 

Este é um caminho que gostaria de percorrer.

 

Da plateia para o palco no Centro Comercial Babilónia

Inicio dos anos 90. Eu e o meu irmão estamos no Babilónia. Digo-lhe que não me sinto com responsabilidade suficiente para tirar a carta, conduzir um carro na estrada. Ele reage com irritação, diz-me que é uma parvoíce e convence-me a avançar.

Todavia, como é que lhe poderia então explicar esse sentimento tão forte de impotência e incapacidade que eu sentia em tudo o que me dizia respeito? Não era possível.

Por alguma razão, a minha personalidade, na adolescência, entregou-se a uma falta de auto-estima tirânica. Não valia a pena estudar porque não teria capacidade de entrar na faculdade. Não valia a pena aprender guitarra a sério porque nunca iria ser bom como os quase melhores. Não valia a pena tentar deixar de fumar porque, enfim, como é que eu, um pedaço de papel permanentemente amarrotado e sempre a rasgar-se, iria ter força de vontade para o conseguir? Não valia o esforço insistir em desenhar desenhar desenhar para ver se poderia chegar a algum lado com isso. Como é que eu poderia cometer a tão óbvia estupidez de achar que poderia chegar aos calcanhares dos meus irmãos ou dos meus amigos? Não. Eu tinha nascido somente para que o valor dos outros fosse reconhecido. Eu tinha caído aqui para ser uma testemunha. Esse era o meu papel.      

Mesmo que de um modo determinista, intui relativamente cedo que considerar-me um figurante não era uma boa estratégia, já que trazia uma talvez não surpreendente tristeza. 

O golpe de estado interno começou, de um modo incipiente, com a música. Juntei-me a bandas e acabei por receber palavras de admiração por aquilo que fazia. Percebi que o método era avançar, mesmo quando achava não estar à altura.

Vim a deixar o emprego para ir estudar Teologia. Mais tarde haveria de escrever livros, artigos para revistas, tornar-me semi-semi-semi-famoso na era jurássica da blogosfera nacional e mudar de emprego várias vezes. Comecei há dois anos a correr e trabalho para um dia conseguir fazer a maratona, algo que acho que nunca irei conseguir, mas para o que nunca deixo de treinar.

Tenho agora 51 anos. Aceitei quase todos os desafios minimamente razoáveis que me foram colocados por mim ou por outros. Os resultados variaram entre o fracasso absoluto e a glória do elogio unânime. Cada vez que oiço/leio um destes últimos, o adolescente auto-imobilizado dentro de mim agradece-me de lágrimas nos olhos a reparação que lhe estou a fazer. Claro que quando levo na boca e caio com os dentes no chão não é agradável, mas o risco compensa, porque coloco sempre tudo nas mãos de Deus.

Agora aproxima-se mais um daqueles momentos marcantes.

Aproveitando a única altura em que estive desempregado, decidi lançar-me o desafio de perceber se conseguiria escrever uma história que pudesse vir a ser um sucesso de vendas. Escrevi um thriller chamado "A Herdeira de Salazar", que a Alma dos Livros quis publicar.

Se parte da prova foi superada, no próximo mês surgirá a segunda e mais importante: a materialização do livro nas prateleiras das livrarias, hipermercados e lojas online. Ao ver o primeiro esboço da capa fiquei um pouco surpreendido com o potencial de venda que esta terá. Talvez o livro não só venda de um modo razoável. Se vender muito, ou mesmo muito, será que estou preparado para o que aí vem?

Como sempre, primeiro surge o receio de não estar à altura e depois o encolher de ombros do "Se tem de ser, vamos a isso. Algo novo? Boa!"

Será só o mais recente fruto da confiança plantada por aquela conversa no Babilónia com o meu irmão.

Caro Miguel, obrigado também por isto.     

 

Regatos e rios

Encolho os ombros. Não sei a resposta além do famoso verso de José Régio "Não sei por onde vou, mas não vou por aí." 

Não consigo enquadrar-me na liturgia evangélica contemporânea. É uma cultura de microfones, amplificadores e cadeiras de plástico que me é estranha. São comunidades que usam o whattsapp para mandar stickers encorajadores com versículos bíblicos e pedir orações. São grupos que à segunda-feira publicam nas redes sociais a pregação do domingo anterior e que a meio da semana fazem a reunião de oração via zoom. São igrejas que usam o cantar como aquilo que me parece uma forma bizarra de expressão emocional pública. 

Não ouso criticar o que não compreendo. Não vale a pena pensar como é que se chegou a este momento, de quais terão sido as influências para que uma cultura sem história, memória e totalmente órfã de significado se tivesse imposto.

É difícil explicar esta impressão de pobreza que as igrejas e cultos evangélicos me trazem. 

Sou um crente na ressurreição de Cristo que não encontra, apesar andar a tentar há uns anos, uma igreja com uma liturgia que faça sentido. Talvez esta não exista.

Nunca fui a uma missa. Estive a informar-me e parece um serviço religioso que poderá ser interessante. Tudo está programado. Há simbolismo. Não existem vozes individuais na assistência e todos agem com um só. Segundo percebi, ao mesmo tempo, pelo mundo inteiro, os católicos reunidos nas missas seguem a mesma ordem litúrgica. Talvez vá assistir um dia destes.

Não Percebi

https://executivedigest.sapo.pt/noticias/lei-que-proibe-praticas-de-conversao-sexual-em-pessoas-lgbt-entra-hoje-em-vigor-e-determina-penas-de-prisao/

Não percebi. Isto quer dizer que empresas como a LGBTFVBNHGFDSZXHF, Bloco de Esquerda e similares estão proibidas de fazer a única coisa que sabem fazer? (Barulho.)

A obsessão com o assunto "sexo" evoluiu até paranóia. Quem não concordar vai preso: condenado a ficar burro a vida toda.

Portugal em números

Números, ouvidos aqui e ali (de fontes credíveis), no arranque de mais uma campanha eleitoral:

15% das famílias pagam 80% dos impostos;

60% dos cidadãos dependem economicamente dos Estado – pensionistas, funcionários públicos e beneficiários de subsídios vários;

Um trabalhador na casa dos 30 receberá 40% do último salário quando se reformar;

30 a 40% do preço de uma casa nova são impostos;

Os senhorios pagam em impostos quase um terço do valor da renda que recebem.

O Comentário Espontâneo chegou à televisão

O novo formato de comentário televisivo teve ontem a sua primeira emissão. 

A ideia, contra-intuitiva para muitos, de que o achismo dos habituais comentadores poderia ter ainda mais uma evolução, foi desenvolvida pelo markeeter Aníbal Soares, da empresa de comunicação Tocanalma.

Eram 21.30 quando a equipa de televisão chegou ao café Snack-Bar O Sonho da Raquel, na Buraca. 

Não demorando mais do que um minuto para que se juntassem algumas mesas, foi pedido a quatro pessoas para comentarem uma notícia de cada um de três tópicos: futebol, eleições e costumes. 

O único critério de seleção foi o de cada um dos participantes já ter bebido uma quantidade mínima de álcool, valor que não foi especificado na emissão.

Durante cerca de meia-hora, a conversa de café reclamou o seu papel de veia principal do sistema circulatório da noção de cidadania portuguesa.

Expressões como "Tou-te a dizer, Tó", "Tás mas é maluco" ou "Vais-me dizer que o gajo não sabia?" pontuaram as intervenções. 

Para satisfação do produção, a percentagem de share do programa ultrapassou a das emissões de comentário tradicionais. 

Segundo Aníbal Soares as pessoas estarão cansadas de ver comentadores pretensamente isentos, e que estão completamente fora da realidade, a debitar ideias de partidos que os colocam nas televisões.

A Associação Regional de Comentadores de Lisboa e Vale do Tejo já reagiu a este novo formato com uma nota de imprensa em que equipara a situação à de auxiliares de enfermagem passarem a dar consultas de especialidade, num tom irónico que não terá sido bem recebido pelas redes sociais, onde se pôde confirmar o grande sucesso da iniciativa.

Com nova emissão prevista para hoje no Café Mão Largas, em Mem-Martins, a partir das 21 horas, corre à boca pequena nos meandros partidários que se estará já a arregimentar militantes para estarem presentes por mera casualidade.

 

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